domingo, 3 de março de 2019

SEGUNDA INFÂNCIA


MENINA ...
TÍMIDA E DETERMINADA
FRÁGIL E FORTE


Chegara a hora da menina ir para a escola. A minha mãe sempre muito dedicada preparou impecavelmente o meu material escolar e o meu uniforme. Lá fui eu para o Grupo Afonso Pena com uma pequena pasta preta na mão, sapato preto devidamente engraxado, meia branca três quartos, uniforme azul marinho com saias preguiadas e o nome Cláudia Luiza bordado no peito.
Não me lembro como fui deixada naquela escola no meu primeiro dia de aula, mas lembro-me perfeitamente saindo de dentro dela ansiosa por encontrar a minha mãe no portão. Foi terrível ficar distante de minha querida mãezinha por quatro horas, não desejava voltar nunca mais naquele lugar. Meus olhinhos radiaram de alegria quando ví minha mãe chegando. Olhei em seus olhos e ví a luz do entusiasmo, da alegria e da satisfação em seus olhos. Sua expressão denotava uma expectativa positiva com relação ao desempenho de sua filha em seu primeiro dia de aula. Repleta de júbilo foi logo me perguntando: _ Gostou, filhinha ?
Não tive coragem de desapontar minha mãezinha. Apesar do meu total desapontamento deveria mostrar uma personalidade bem adaptada àquela situação nova e desprazerosa para mim, no entanto, importante demais para os meus pais. O meu superego superdesenvolvido  pronunciava o seu enfático discurso:
_ Serás sempre a filha perfeita, boazinha e bem adaptada !
A minha alma insatisfeita  se debatia e eu sentia no peito as dores de seu desconforto. Tímida e sempre em silêncio era vencida pelo superego ditador. Parecia não Ter forças para lutar com meu superego deixando-o prevalecer. Assim, acuada, abaixei o meu olhar para que minha mãe não enxergasse a minha verdade e respondí timidamente com um movimento afirmativo de cabeça.
_ Eu sabia que você iria gostar. Comentou alegremente a minha mãe. A mamãe sempre teve uma qualidade ou um defeito marcante; na verdade, qualidade e defeito dependendo do contexto – Mamãe sempre optou por enxergar apenas a felicidade. Assim, nem sempre conseguiu se deparar frente a frente com a tristeza dentro de mim.  A sua expectativa com relação a mim no meu primeiro dia de aula jamais a deixaria enxergar a minha verdade.- que eu havia detestado  a escola e estava tremendamente infeliz e assustada no  ambiente escolar. Aprendi neste momento que as expectativas matam o que o outro realmente é e sente. As expectativas da mamãe calavam os meus reais sentimentos fazendo de mim uma aluna exemplar para a época – a menina calada que jamais criaria confusão com a professora ou com qualquer coleguinha.
Meu superego continuou:
_ Seus pais saberão sempre o que deve ou não gostar. Para que seja amada, esta será sempre a sua verdade.
Perdí a garantia do meu amor, mas ganhei a garantia do amor de meus pais, e isto era tudo que eu queria naquele momento. Achei que acabaria por me acostumar e gostar da escola. Ia todos os dias com a esperança de me adaptar realmente àquele espaço restrito demais para os anseios de minha alma.
Achava linda a minha professora, ainda hoje guardo a memória olfativa de seu perfume. Tinha vários colegas mas não tinha coragem de me interagir com eles. Era a primeira da fila, a mais miúda, a mais calada. Teria que calar a minha alma para não correr riscos. Me determinei a expressar-me de outras formas. Ser a mais inteligente, a mais disciplinada, tirar boas notas era uma boa saída para quem se sentia tão acuada. Morria de medo de uma colega negra grandalhona que usava duas longas tranças. Ela me beliscava todos os dias. De tão calada que eu era, nunca tive coragem de denuncia-la. Ela se transformou num fantasma em minha vida. Talvez quisesse com estes beliscões me tirar da inércia em que me encontrava, talvez dissesse para mim o tempo todo: _ Acorde, Cláudia Luiza ! Porém, naquele tempo, não entendi a sua mensagem. Tive muita raiva e muito medo desta colega malvada, hoje lhe agradeço afetuosamente, pois foi sem saber o meu primeiro sinal de alerta. Ai! Como doíam aqueles beliscões fininhos... pareciam picada de formiga. Uma formiga só me tiçando e me picando não foi suficiente para me fazer gritar. Acho que eu precisava mesmo era do ataque de um formigueiro inteiro. Aprendi a suportar bem o ataque de formigas solitárias e a lidar bem com a dor de suas picadas. Hoje sei que esta resistência a dor nem sempre é boa. Para ser forte escondi a minha fragilidade. Fingi que ela não existia. Escondida dentro de mim, não soube encontrá-la em alguns momentos importantes de minha vida. Há momentos que precisamos  dela para descansarmos. De posse de nossa fragilidade encontramos colo, afago, proteção. Muitas das estagnações energéticas que tenho hoje criaram suas raízes neste solo duro que se forma quando  a fragilidade não pode entrar em cena.
Até para tomar injeções eu era uma boa menina. Não reclamava e não fazia nem mesmo cara feia. Virava o rostinho para o lado oferecendo meus raquíticos bracinhos para no final ouvir a mamãe dizer:
_ Essa menina é muito boazinha ! E ao mesmo tempo – Muito forte e valente esta menina. Não tem medo de injeções! E, como eu gostava de ser valente... Nesta época, eu não conhecia ainda meu lado ariano. Se eu o conhecesse, talvez eu tivesse esmagado aquela formiga.



No ano seguinte mudei de escola, fui estudar no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Era uma criança fora da “ faixa etária “, não possuía a idade regulamentada para iniciar o meu primeiro ano primário. Mais um desafio ! Provar a todos que não ficaria de fora, que estaria dentro dos padrões estabelecidos pela escola. Fui rejeitada por algumas escolas e aceita por esta. Deveria provar a minha eficiência. Tão pequena e já se cobrando provar tantas coisas. Não me lembro de nenhum colega, mas lembro-me perfeitamente da cara fechada da minha professora Maria Auxiliadora que não me auxiliou em quase nada. Descobri a solidão nesta escola. Talvez tenha sido este o meu maior aprendizado neste período. Nunca fui auxiliada por dona Auxiliadora a interagir-me com meus colegas e superar a minha timidez e a solidão que me devorava principalmente durante o recreio. Tinha o meu lugar reservado dentro da sala de aula e me sentia desapropriada tão logo batia o sino  como uma sirene de ambulância anunciando o recreio. Qual o meu lugar naquele pátio repleto de crianças. Procurei uma árvore bem frondosa. E lá, debaixo defronte de seu tronco robusto e debaixo de seus galhos  acolhedores, a menina Cláudia se isolava sentindo-se, de certa forma, mais protegida. Hoje, compreendo que inconscientemente eu buscava a segurança e o afago de  minha mãe representada simbolicamente por aquele linda árvore. A menina que brincava tanto em casa não conseguia se mover durante o recreio.
Mamãe me buscava todos os dias. Chegava sempre radiante de alegria e com muito interesse perguntava-me sobre o meu dia. Jamais tive coragem de dizer a ela que detestava aquela escola, que sofria e sentia-me aprisionada. Como de costume a minha alma sempre se silenciava diante dos berros do meu superego manipulador: _” Mostre  com boas notas o quanto você se adaptou, o quanto é inteligente, responsável e interessada por esta escola”.
Os meus boletins eram ótimos e mostravam o quanto eu estava dentro dos padrões exigidos e esperados por todos. Assim, tudo indicava que a vida corria bem. Soube enganar a todos e ainda mais a eu mesma. Naquela época a maioria das pessoas e a própria escola não sabiam fazer uma leitura do óbvio. Entendiam apenas o B, A, BA das notas. Educar era formar fantoches. Aliás, ainda hoje, as escolas se escondem atrás das notas, provas, boletins, pois avaliar um aluno através de uma  relação mais próxima com o mesmo dá muito trabalho. Conhecer verdadeiramente o aluno e aquilo que ele realmente sabe e ignora é bem mais difícil do que corrigir provas de múltipla escolha. Se comprometer a auxiliar o aprendiz a vencer as suas dificuldades é bem mais difícil do que impor ao mesmo que repita a série obrigando-o a rever coisas que ele não suporta. 
Passaram-se  28 anos e a educação mostrou ter pernas curtas. Ainda tropeça e machuca muita gente .Sonho com uma educação que ao invés de aprisionar, liberte muitas Claudinhas.




Em casa , brincava e demonstrava a minha força. Achava o máximo ser fisicamente mais forte que a minha irmã Ainda Mara. Através de brincadeiras, lutava, combatia e vencia a figura mais elogiada intelectualmente dentro da nossa casa. Ainda Mara era a representante do intelecto e Claudinha a representante da força e da esperteza. Nunca fui uma criança agressiva apesar de destruir simbolicamente com minha alma de guerreira a representante intelectual da família. Era reforçada pelo meu irmão Rômulo. Acho que ele elaborava através de mim, conflitos semelhantes em relação ao José Márcio, o geninho da família.
As guerras aconteciam apenas no espaço lúdico permitindo que a rotina familiar fosse sempre caracterizada por muita harmonia, afetuosidade e paz. Depois da guerra ludica, a docilidade e a doçura tomavam conta de mim. Brincando o meu id se expressava e o meu ego se fortalecia.
Talvez tenha tomado nesta época as primeiras lições sobre a importância do brincar na vida de todo ser humano.


***

Repentinamente descubro em meu corpo um novo prazer. Não me lembro quando e como o sentí pela primeira vez, sei apenas que jamais abrí mão dele apesar das censuras. Descobrí o orgasmo nesta fase da minha infância e me permitia tê-lo com muita frequência. Me masturbava e me deliciava com as sensações prazerosas deste ato. Comecei a ser censurada por minha família. Diziam que eu estava “ apertando perereca “. Comecei a viver a recriminação e a proibição. A descoberta da minha sexualidade passa a  ser encarada como uma experiência pecaminosa. Não conseguia parar de pecar e descobrí o sentimento de culpa. Me sentia diferente e anormal, com isso a ansiedade crescia e de mais prazer eu carecia. Tentava esconder de todos o meu pecado, só não conseguia esconder de  eu mesma. Optei por ele até descobrir já na universidade que ele nunca existiu. Teria sido poupada se tivesse feito esta descoberta mais cedo. Fui determinada quando optei por queimar no inferno a Ter que apagar a chama do prazer que descobrí dentro de mim. Ainda bem que descobrí a tempo que o inferno só existia na cabeça daqueles que mutilaram a sua sexualidade. Quantas mulheres foram mutiladas no momento desta descoberta  criando uma imagem assexuada de sí mesma. Uma mulher impotente jamais será uma ameaça para os machões que só conseguem se afirmar enquanto macho diante de um ser que amputou a força feminina capaz de desnudar o verdadeiro homem.


***



Apesar de Ter nascido na capital sempre tive uma alma matuta. Viví até meus 7 anos em Belo Horizonte fazendo piquenique debaixo do prédio da esquina e subindo e descendo do elevador do prédio ao lado. Brincava muito, mas o meu limite era sempre quatro paredes. Não sabia o que era fazer piquenique no campo e subir e descer de árvores. Além da minha irmã Aida Mara, tinha uma única amiga chamada Sibele. Éramos inseparáveis, no entanto, o destino nos separou e não nos uniu mais quando me mudei para Rio Casca, uma pequena cidade do interior de Minas. Com esta mudança, meu pai iniciava uma nova vida profissional com novas perspectivas e eu nascia novamente. Minha alma passou a encontrar um novo espaço para expressar livremente o seu lado matuto. Vivia um espaço apertado na cidade grande e agora a pequena cidade do interior me presenteava com um amplo espaço. Que paradoxo! Comecei a entender aí as contradições. Nem tudo que é grande é espaçoso.
Fui morar num casarão antigo completamente diferente da minha morada anterior. Agora eu morava numa casa com piso de tábua corrida encerado bem diferente dos tacos sintecados do apartamento. O corredor era comprido, os portais altos e bons para escalar, o teto forrado em madeira se diferenciava muito da laje de concreto e o terreiro com quintal e fogão à lenha  era exclusivamente nosso, sem as costumeiras regras de condomínio que limitavam tanto a nossa vida lúdica. Sair de um apartamento para vir morar num espaçoso casarão era como ser transferida de uma gaiola apertada para  um amplo viveiro de portas abertas. Sentia cada espaço da nova casa como se fosse uma conquista de território novo. Comecei a exercitar com prazer no fogão à lenha a arte da culinária que por força do destino ficou  na lembrança apenas como agradável brincadeira de criança. Como obrigação de adulto jamais foi exercitada com prazer. Nadar nas extensas caixas d’agua, esconder dentro dos armários que não eram embutidos na parede, escalar os portais de madira, brincar de bola no extenso corredor da casa, fugir amedrontada dos morcegos que  escapavam através dos enfeites vazados do forro de madeira eram novidades que deixaram agradáveis lembranças. Ficou o cheiro do lodo das caixas d’agua e do armazém abaixo do nosso casarão, o medo de morcegos e muitas outras lembranças significativas. Hoje, lodo tem cheiro de infância e o medo de  morcego ao invés de gerar pavor me diverte.
Tive a oportunidade de  criar muitos animais. Pombas, passarinhos, galinhas e galos foram os meus primeiros animais domésticos. Os  gatos eram os meus animais prediletos, aprendí com eles o sentido de coisas fundamentais nesta vida. A minha primeira gata, a Teteia era na verdade um gato. Não sei se esse erro em sua identidade sexual trouxe danos à sua sexualidade, mas aprendí com este engano a diferenciar um macho de uma fêmea. Com o decorrer  alguns enganos viria me possibilitar diferenciar um macho de um homem e uma fêmea de uma mulher. Teteia possuia uma docilidade incomum para gatos machos, talvez tenha desenvolvido mais o seu lado feminino por ter sido criado como se fosse uma fêmea. Isto me faz pensar que muitos machões precisam de um toque feminino para se tornarem homens sensíveis, menos agressivos e ariscos; homens que não temam o amor e a entrega.
Com Teteia aprendí o significado da fé. Num certo dia Teteia foi roubada, nem os policiais conseguiram dar fé de minha querida gatinha. Traumatizada diante de minha primeira perda significativa e certa de que os adultos não teriam disponibilidade para resolver o meu problema, desenvolví naturalmente dentro de mim  a fé inabalável de que teria a minha gata de volta. Com a companhia de uma amiga chamada Maria Teresa resolví intuitivamente procurar a minha gata num bairro mais distante e pobre da cidade. Sem que minha mãe soubesse, durante à noite rodadva por rua escuras, estreitas e  às vezes desertas perguntando de casa em casa se haviam visto uma gata preta e branca com uma pintinha no nariz. Ninguém acreditava que eu pudesse encontar a minha gata, só eu e Maria Teresa. Na terceira noite , repentinamente, ela passou correndo entrando dentro de uma casa situada em uma das escuras ruas deste bairro. Corrí até a casa e fiz novamente a mesma pergunta já repetida dezenas de vezes certa de que agora eu teria a resposta tão esperada. Os moradores desta casa atenciosamente me levaram até a cozinha para que eu pudesse verificar se o novo animal que aparecera por alí era a gata que procurava. Corrí para a cozinha certa de reconhecê-la e gritei entusiasticamente: -Tetéia !
Tetéia também me reconheceu cumprimentando-me com um gracioso miado. Peguei minha gata que na verdade era um gato, cruzei a cidade com ela em meu colo e já na praça onde brincavam, minha irmã Ainda Mara e algumas colegas gritei euforicamente: _ Achei a Tetéia !
Nem as crianças e nem os adultos acreditavam no que viram. Descobrí neste momento que bastava apenas a minha fé para que eu pudesse ir atrás e encontrar tudo que desejasse nesta vida. Sempre ouví dizer que a fé move montanhas, mas descobrí que ela move algo muito maior , ela nos move. Sem ela nos transformamos em um ser estático, árido em esperança  e impotente para transformar. Com Tetéia nos braços não transformei o mundo, mas transformei naquele momento a minha tristeza em alegria.
Se o ser humano se prontificasse a transformar pelo menos seus sentimentos teríamos um mundo com certeza bem melhor.
Minha mãe abismada com o ocorrido descobrira naquele momento por onde andara sua filha por três noites consecutivas. Tive que omitir minhas andanças para que os adultos não enfraquecessem a minha fé e a minha disposição mostrando-me os perigos e as fantasias ameaçadoras que rondam suas cabeças. A negatividade do outro é sempre um impecilho para nossas conquistas se deixarmos nos abater por elas.
Logo depois de Teteia tive uma outra gata ainda mais amada chamada Mimosa. Era uma gata preta, mestiça angorá. Com Mimosa pude perceber que os animais vivenciam e expressam sentimentos profundos. Percebí tudo isto através de seu olhar. No seu primeiro parto Mimosa chorou de emoção e preocupação solicitando que eu ficasse a seu lado cantando. E, cantando, eu presenciei todos os seus partos e nascimento de seus filhotes. Mimosa foi a minha primeira professora de educação sexual. Aprendí com ela sobre a concepção, gestação, parto e amamentação. Os animais nos falam sem constrangimento de muitos assuntos tabus em nossa sociedade, vale a pena fazer um curso com eles.
Mimosa além de minha  educadora era também a minha protetora. Dormia em minha cama e jamais permitia que qualquer perigo me ameaçasse. Diante do perigo sua doçura se transformava em instinto selvagem.
Nunca presenciei a morte dos animais que amei profundamente. Teteia foi dada como desaparecida e Mimosa levada para longe de mim depois de velha antes que a morte nos separasse. Meu pai a levou para um restaurante de seu posto de gasolina onde teria comida com fartura mas carência de afeto. Apesar de poder vê-la quando quizesse sofrí uma crise depressiva significativa. Na ocasião não sabia o que viria a ser uma depressão, mas sentí perfeitamente o presságio dela. Subia no pé de abacate da nossa casa nova e calada pensava na  minha primeira perda e nos sentimentos que a minha velha gatinha estaria vivenciando. O meu pensamento de criança atribuia aos sentimentos de Mimosa a mesma intensidade e significado que os meus. Sentindo-me culpada por Ter permitido este abandono e sem forças para enfrentar o seu olhar, afastei-me definitivamente do meu  amor. Não lutei para tê-la comigo e sofrí profundamente com isso. Prometí  a mim que pelo resto de minha vida jamais omitiria o meu amor. Lutaria por ele mesmo que tivesse que enfrentar ou magoar as pessoas mais queridas de minha vida.
Nesta época mudamos para nossa casa nova  construída exclusivamente para atender as necessidades da nossa família. Apesar de Ter amado profundamente esta casa, ela jamais teve a magia do meu primeiro casarão.


***********



A minha vida escolar mudou consideravelmente. Possuia  vários colegas e me interagia bem com todos eles. A escola era bem familiar, chegava a lanchar em casa sempre que desejasse. Nunca conseguí deixar de ser a aluna disciplinada, responsável e aplicada. Jamais daria motivos para ser chamada a atenção ou colocada de castigos. No entanto, por mais que a gente evite a vida sempre nos oferece situações traumáticas para que possamos aprender um pouco mais com elas. Os traumas ao invés de bloqueios deveriam se transformar sempre em aprendizados positivos para o nosso desenvolvimento pessoal. Na 4ª série primária pude vivenciar mais um trauma que ao invés de bloquear-me ensinou-me muitas coisas. Existem professores que só conseguem educar traumatizando seu aluno. Nestes casos é fundamental que o aprendiz tenha a capacidade de discernir e enxergar a educação pelo avesso, ou seja, aprender sobre tudo que não se deve aprender. Foi o que aconteceu comigo. A minha professora de 4ª série me ensinou tudo o que não se deve aprender com sua prática educacional caduca e preconceituosa. Pela primeira vez tive uma professora que não gostava de mim apesar de nunca Ter lhe dado motivos para isto. Talvez eu tenha sido um instrumento de projeção de todas as suas insatisfações. Aprendí com esta professora que  não precisamos fazer nada para sermos rejeitados ou odiados, basta apenas que o outro seja uma pessoa mal resolvida e carregado de ressentimentos, insatisfações e todos os tipos de sentimentos negativos. Passei a ser  um espelho para a alma daquela pseudo educadora ressentida com a vida. O seu primeiro golpe sobre mim foi colocar-me de castigo durante o recreio sem merenda durante três dias exposta a todos de forma humilhante no corredor da escola. O motivo alegado foi a minha não participação em uma atividade catequista que em nada tinha haver com o currículo escolar. Somatizei a humilhação que sentí com uma forte dor de cabeça que não se repetiu nos próximos dois dias que faltavam do castigo. Pela primeira vez meu pai foi à escola tirar satisfações e defender-me das tiranias de um educador déspota. Sentí-me protegida e satisfeita com essa atitude paterna que só fez aumentar o ódio  da minha professora e a preparação de um terreno fértil para a próxima vingança. Passado pouco tempo, chegara a hora da escola revistar a cabeça de todas as crianças com o intuito de eliminar os piolhos. Ao invés de eliminar piolhos acabavam em muitos casos eliminando a auto-estima de muitas crianças. Eu tive o azar de ser uma das escolhidas. Toda criança que tivesse piolho pagaria por seu crime uma pena calcada na humilhação de ser expulsa por três dias até eliminar todos os seus parasitas. Para não correr este risco, minha cabeça foi cuidadosamente revistada por várias pessoas de minha casa. Cuidei de meus cabelos como se estivesse indo para uma festa e tranquilamente partí para a escola. Estava segura e despreocupada, no entanto, ao ser revistada pela professora minha tranquilidade se transformou em desespero. Com seus olhos cheios de maldade conseguiu enxergar uma infinidade de lêndias em meus cabelos. Com uma mistura de ódio e sarcasmo mandou que eu me retirasse e retornasse à escola apenas quando eu eliminasse todos os meus piolhos. Saí da sala de aula cabisbaixa sem coragem de olhar nos olhos de meus colegas. Humilhada partí para a casa cheia de revolta em meu coração, chorando e acusando a minha mãe pela suposta negligência para comigo.
Indignada e confusa revistou novamente a minha cabeça e partiu imediatamente para a escola furiosa como uma leoa a defender sua cria. Nunca havia visto anteriormente o lado fera da minha mãe sempre dócil e tranquila. Lembro-me de suas palavras firmes dirigidas a todos os educadores da escola:_- Quero que todos catem piolho na cabeça da minha filha. Se acharem uma lêndia ou piolho que seja, eu cômo ele !
Diante desta cena, percebí que o nosso lado fera deve sempre se manifestar em ambientes selvagens para que não sejamos devorados pelo ódio e pelo despotismo alheio. Naquele momento uma falsa educadora estava sendo desmascarada e eu separada de meus colegas que me acompanharam desde a 2ª série. Jamais tornei-me novamente vítima daquela professora e espero que ela não tenha eleito outras. Continuei na mesma escola, mas mudei de turno. Passei a  Ter novos colegas e uma nova professora com a qual me identifiquei muito. O seu nome era Luísa, assim como parte do meu. Depois de tanta guerra a paz estava de volta. Nesta guerra aprendí muito mais a ser defendida do que lutar propriamente. Este aprendizado talvez pudesse mais tarde me auxiliar no exercício de defesa em prol dos mais fracos.

            O tempo passava e eu me sentia cada vez mais livre. A pacata Rio Casca  me tornava uma criança cada vez mais ativa e energética. Explorava sem medo cada espaço da minha pequena cidade. Para mim ela era muito grande, bem maior do que a grande Belo Horizonte que limitara tanto a minha vida de criança.
            Os meus piqueniques já não eram mais realizados debaixo de escadas sombrias. Agora eu tinha a natureza e o sol. Já não era mais necessário subir e descer  de elevador, podia descer e subir com minhas próprias pernas lindas montanhas. Não era mais necessário fantasiar os perigos, eles se apresentavam de frente mesmo sem a minha autorização. Aprendí a fugir e enfrentar boiadas, cobras e muitos outros estimulantes perigos. Me saía muito bem deles e fui gradativamente aprendendo a ser uma pessoa cada vez mais corajosa. Comecei a achar estimulante desafiar o medo e sair vitoriosa, fazendo crescer cada vez mais a fé na guerreira que residia dentro de mim
            Brincar era a minha principal atividade. As brincadeiras deveriam ser desafiadoras e movimentadas. O movimento passou a ser uma característica de minha alma e à partir daí nunca mais parei. Estar em movimento me permitia sentir mais a vida, pois viver é estar em movimento.
Quem está parado está de certa forma meio morto.  Gostava de lutar e aprendí a lutar para vencer. Gostava de esportes e aprendí a competir, a perder e ganhar. Gostava da natureza e aprendí com ela a Ter naturalidade. Gostava de andar de bicicleta e aprendí a Ter mais equilíbrio. Gostava de meus amigos e amigas e aprendí a me relacionar. Enfim, gostava de tudo que amo hoje. Gostando de gostar tanto, aprendí a amar.
            Com tantos aprendizados, só não aprendí a lidar com a morte. Eis a única coisa que eu realmente temia. Morria de medo de perder minha mãe, meu pai ou qualquer outra pessoa que amasse muito. Nem pensava em minha morte de tanto medo que tinha da morte daqueles que amava. Rezava para evitar isto, mas a minha reza era muito mais uma obrigação e uma barganha do que propriamente uma relação com Deus. Nesta época me ensinaram sobre Deus ao invés de buscar aprender diretamente com ele os seus ensinamentos. Aprendí a temer a Deus sobre todas as coisas. Deus era a morte, jamais a vida. Deus era uma obrigação, jamais o prazer. Depois dos ditos ensinamentos religiosos deveria passar a percebê-lo como um homem autoritário, manipulador, ditador e proprietário de todas as coisas. Antes disto ele era naturalmente uma presença viva, forte e acolhedora em minha vida. Agora existia um Deus demoníaco pronto para julgar-me e punir-me. Temia que seu castigo predileto pudesse ser a morte. Não conseguia gostar deste Deus sentindo-me culpada e temerosa de tornar-me a sua próxima vítima. Aguadei por muitos anos o seu castigo, no entanto, jamais fui castigada por ele.. E, foi assim que fui descobrindo que o Deus dos livros e da cabeça das catequistas era bem diferente do Deus que habitava o meu coração. “Deus de infinita beleza e poder “. Meu coração deveria crescer infinitamente para acolhe-lo dentro de mim tamanha sua grandeza.





            E as minhas férias ?  Passava em ponte Nova na casa do vovô Teófilo e tias paternas. Lá deveria prevalecer a obediência  e as boas maneiras. A lei era a “lei”. No entanto, férias combinava mesmo era com o nome mais especial da minha infância: “ZICA”. Vovó Luiza ? Não, vovó Zica ! Herdei o Luiza e restou o Zica.
Zica, o sonho de todo neto
Zica, o sim
Zica, a doação
Zica, a alegria
Zica, o pode tudo
Zica, a fartura
Zica, a espontaneidade
Zica, o amor
Zica, a alimentação
Zica, a expressão
Zica, a aventura
Zica, o movimento
Zica, a criatividade
Zica, a brincadeira
Zica, o natal com Papai noel
Zica, a artiosidade
Zica, a infância que toda criança deseja e precisa
Zica, vovó Zica, lição simples e profunda
            Com vovó Zica a lei era o prazer. Deixou saudades e muitas lembranças agradáveis. A minha infância termina aqui. Vovó Zica partiu e com ela a minha meninice. Talvez tenha ido para um mundo mais parecido com ela. Talvez esteja preparando crianças pois este nosso mundo precisa muito delas.
            “Vovó Zica, a minha infãncia se foi, mas a criança continua viva aqui dentro de mim. Me orgulho de Ter sido a neta mais parecida com você. Quando criança me desagradava pensar ser parecida com uma pessoa velha. Coisas de criança ! Hoje me agrada profundamente parecer com um ser tão jovem. Você não envelheceu por causa da criança. Te tenho muito viva. A morte não existiu, apenas um momento de descanso para a próxima brincadeira. Haveremos de brincar muito ainda. Eternamente...”
            Chorei muito quando vovó Zica se foi levando a minha infância. Não quis participar ativamente do funeral, neguei com isto enterrar a minha criança. Assim , ela continua brincando aqui dentro de mim.
          Ubá jamais seria a mesma cidade sem a vovó Zica. Ficou o vovô Tote, meus queridos primos e a engraçada Tia Maria Luiza. No entanto, tudo mudou com o adeus da vovò que marcou para sempre a nossa vida . Percebí com isto que quando um grande amor se vai muda-se definitivamente o capítulo de nossa história.



         










































Nenhum comentário:

Postar um comentário