CRIANÇA...
CALMA
E ATIVA
BIRRENTA
E MEIGA
De repente
sou jogada num mundo totalmente desconhecido sem saber porque e para que. Aliás, não sei se existe realmente algum motivo para estarmos aqui. Sinto que sim, mas
não tenho como comprovar esta verdade, mesmo que ela seja só minha e confirmada em cada vivência que me é oferecida pela Deusa Vida. Creio
que descobrirei as respostas para as minhas indagações através de uma vida intensamente
vivida e sentida. Aliás, nossa devoção à Deusa Vida nos faz mais divinos e torna a nossa vida mais divina também. Cercada de dúvidas e certezas que divindade me oferece, vivo e sigo. Para isto, foi necessário que eu nascesse. Quando nascemos,
nossos guias nos oferecem um livro em branco e uma caneta para que possamos
escrever a nossa história, ou nos
oferecem um livro com uma história já concluída para que possamos nos limitar a
dramatiza-la ? Eis a questão.
Depois
de muitos anos de vida, percebo que poderia ter feito tudo diferente. Mas, fiz
exatamente da forma como dei conta de fazer.
Se foi a melhor ou a pior opção, não importa mais; importa apenas que foi a
opção que escolhi. Mesmo cercada por algumas limitações, pressões e obstáculos,
sinto que me foi dado o livre arbítrio. Tive a opção de escolher caminhos
diferentes, no entanto, estou aqui agora
trilhando este caminho onde estou. Isto me faz pensar que somos todos autores de alguma
obra. Acredito que Deus jamais escreve a nossa história, se limita no máximo a nos mostrar
nossos erros de ortografia. O mundo é
como se fosse uma vasta biblioteca com uma infinidades de bibliografias e
biografias.
Assumi o desafio de escrever o meu próprio livro, não aceito a simples tarefa de fazer cópias. Tenho criatividade suficiente para compor uma história emocionante. Assim, de posse do meu livro em branco e da minha caneta eu começo aqui a minha história.
Assumi o desafio de escrever o meu próprio livro, não aceito a simples tarefa de fazer cópias. Tenho criatividade suficiente para compor uma história emocionante. Assim, de posse do meu livro em branco e da minha caneta eu começo aqui a minha história.
Nasci. Não lembro do meu nascimento e nem mesmo de minha vida intra uterina. Extra útero, a minha mãe esteve envolvida com uma vida repleta de afazeres domésticos e com 3 filhos para cuidar e meu pai bem envolvido com o trabalho gestando a vida financeira da família. Provavelmente, ambos sem muito tempo para conectarem comigo antes de eu "dar a minha cara". Naquela época não era comum um envolvimento profundo dos pais com os filhos durante a gravidez. Gravidez era muito mais um estado fisiológico do que qualquer outra coisa. Se fazia bem ou não para o bebê ser tratado como um mero produto fisiológico, isso era coisa que ninguém se questionava na época. Eu, a quarta filha e a última nos planos iniciais do casal provavelmente me sentia aconchegante no útero de minha mãe, pois ainda hoje me sinto profundamente acolhida, tranquila e em êxtase na posição fetal. Meus registros deste momento se manifestam de forma inconsciente através de uma linguagem muito mais corporal e cinestésica. Por outro lado, meus registros formais alegam que o meu nascimento ocorreu no dia
21/05/1966 às 2:15 horas no
hospital Vera Cruz da cidade de Belo Horizonte. Mais uma mineira uai ! E, mais uma taurina que pensou anos a
fio ser uma geminiana. Será que quando pensamos ser o que não somos, deixamos
de ser, de fato, aquilo que somos? Isto vocês verão ao longo de minha história.
Minha
mãe cheia de pudor preferiu ser sedada. Ela não fez por mal, mas pelo excesso de constrangimento, vergonha e retraimento, fruto da suposta retidão e decência implantada em seu ser formatado pelo machismo da época. Por ignorância, não tinha disponível, naquele momento,
a consciência de que seu olhar e seu
calor além de ser muito importante, seriam uma grande referência não só para a
minha chegada a este mundo, como também para a minha própria vida. Assim, chego ao mundo privada de seu olhar,
de seu som, de seu cheiro e de seu calor. Da penumbra do útero quentinho e acolhedor sou levada para uma sala fria e com luzes fortes onde, mesmo depois de mais de 50 anos, grande parte dos bebês ainda continuam chegando ao nosso mundo. Com certeza, nenhum bebê é capaz de se sentir protegido e contido
num ambiente frio. Mas, grande parte da comunidade médica ainda resiste em admitir o obvio. E, como o poder de decisão ainda está com eles, os partos ainda acontecem em ambiente médico porém pouco humanizado e propício à saúde emocional tanto da mãe quanto do bebê. Estudos revelam os benefícios para ambos quando o parto é realizado num ambiente aquecido, seguro e com pouca luminosidade. O hormônio da ocitocina que promove as contrações uterinas e que atua também no mecanismo de estimulação e produção do leite pode ser inibido num ambiente pouco acolhedor. Não é a tecnologia que favorece um parto normal, mas uma entrega à nossa condição mais primitiva e instintiva. Não é a toa que os animais procuram um local escuro, reservado e acolhedor para parir e não a exposição direta à luz solar ou lugares excessivamente frios. As mulheres destituídas de seu saber como parturientes e como parteiras deram aos homens o poder de parir, visto que grande parte dos médicos no passado eram homens e as ditas parteiras estão sendo substituídas por um bisturi. . Nós, mulheres, precisamos nos apropriar novamente deste saber e ofertar aos nossos filhos uma chegada acolhedora a este mundo. Sem tirar da medicina o seu mérito, só agravos no parto deveriam ser de sua competência.
Como detesto salas frias! Talvez, reflexo desta minha primeira experiência cinestésica. Minha mãe, logo após ter me parido, diz ter sentido um frio terrível. Nenhuma coberta era capaz de aquecê-la. Minha avó tentava aquece-la com todos os cobertores disponíveis, mas o frio que a dominava parecia não poder ser saciado. O que ela precisava mesmo era do calor e do afago da filha que acabara de trazer ao mundo. Sob efeito da anestesia e sem lembrança alguma do parto, perdeu a capacidade de sentir o calor que ela e eu precisávamos tanto naquele momento. Perdemos muito mais do que o nosso calor naquele momento. Perdemos a conexão com a significação daquele momento único e a oportunidade de cada uma sentir a presença acolhedora da outra; uma presença que nos presenteia com riquíssimas sensações capazes de curar qualquer dor e temor. O cheiro, o som, a visão, a energia, enfim, sensações inomináveis que ultrapassam os nossos sentidos ofertam a este momento uma magia que transforma qualquer dor em prazer. Ao invés da presença, vivemos o abandono. Imagine a sensação de perda e de pavor que este primeiro abandono provoca na psique de uma criança e de uma mãe. Não foi a toa que mamãe produziu pouco leite e que seus seios tiveram em pouco tempo serem substituídos pela mamadeira. Vivi naquele momento uma consciência fragmentada disto tudo. Esta consciência só se consolidou e ampliou através de meu processo de vida. Foi necessário viver boas e gratificantes experiencias com a minha mãe para que eu pudesse lentamente me unificar novamente. Fica aí, um alerta para as futuras mamães! Vocês podem facilitar bem a chegada de seus filhos. Não os entregue aos médicos, mas ao seu ventre. Faça-os sentir a sua voz, o seu calor, a sua energia, o seu cheiro, enfim, toda a segurança e todo amor que você tem para oferecer. Não deixe que as anestesias anestesiem a sua capacidade de sentir e de doar ao seu filho o que ele precisa sentir. Com certeza, além de amenizar o trauma do nascimento, você estará ofertando a consciência de que a vida pode ser tranquila e prazerosa. A primeira consciência acerca da vida determina muito o nosso posicionamento frente a ela. Tem um sábio ditado que diz: “A primeira impressão é a que fica”. Mudar uma impressão ruim não e impossível, mas, com certeza, pode dar um pouquinho mais de trabalho.
Como detesto salas frias! Talvez, reflexo desta minha primeira experiência cinestésica. Minha mãe, logo após ter me parido, diz ter sentido um frio terrível. Nenhuma coberta era capaz de aquecê-la. Minha avó tentava aquece-la com todos os cobertores disponíveis, mas o frio que a dominava parecia não poder ser saciado. O que ela precisava mesmo era do calor e do afago da filha que acabara de trazer ao mundo. Sob efeito da anestesia e sem lembrança alguma do parto, perdeu a capacidade de sentir o calor que ela e eu precisávamos tanto naquele momento. Perdemos muito mais do que o nosso calor naquele momento. Perdemos a conexão com a significação daquele momento único e a oportunidade de cada uma sentir a presença acolhedora da outra; uma presença que nos presenteia com riquíssimas sensações capazes de curar qualquer dor e temor. O cheiro, o som, a visão, a energia, enfim, sensações inomináveis que ultrapassam os nossos sentidos ofertam a este momento uma magia que transforma qualquer dor em prazer. Ao invés da presença, vivemos o abandono. Imagine a sensação de perda e de pavor que este primeiro abandono provoca na psique de uma criança e de uma mãe. Não foi a toa que mamãe produziu pouco leite e que seus seios tiveram em pouco tempo serem substituídos pela mamadeira. Vivi naquele momento uma consciência fragmentada disto tudo. Esta consciência só se consolidou e ampliou através de meu processo de vida. Foi necessário viver boas e gratificantes experiencias com a minha mãe para que eu pudesse lentamente me unificar novamente. Fica aí, um alerta para as futuras mamães! Vocês podem facilitar bem a chegada de seus filhos. Não os entregue aos médicos, mas ao seu ventre. Faça-os sentir a sua voz, o seu calor, a sua energia, o seu cheiro, enfim, toda a segurança e todo amor que você tem para oferecer. Não deixe que as anestesias anestesiem a sua capacidade de sentir e de doar ao seu filho o que ele precisa sentir. Com certeza, além de amenizar o trauma do nascimento, você estará ofertando a consciência de que a vida pode ser tranquila e prazerosa. A primeira consciência acerca da vida determina muito o nosso posicionamento frente a ela. Tem um sábio ditado que diz: “A primeira impressão é a que fica”. Mudar uma impressão ruim não e impossível, mas, com certeza, pode dar um pouquinho mais de trabalho.
Todos
os registros de meu nascimento ficaram
encrostados no meu corpo se manifestando constantemente através de inúmeras condutas, dificuldades e
necessidades atuais. Um exemplo típico é a minha posição ao dormir bem parecida
com a de um feto. Sinto-me contida, protegida e tranquila ao enroscar-me e ser
tocada pelo calor de uma coberta, do sol ou do afago pronunciado pelo amor numa
relação a dois. Sempre dormi bem, talvez por saber buscar sempre a posição
certa. E, haja calor para esquentar as minhas mãos e pés frios. De acordo com a
Medicina Tradicional Chinesa sofro de deficiências energéticas que me fazem
sentir mais frio. Será que tudo não começou ai? Adoro água bem quente e, como
já disse: Detesto salas frias! Preciso de janelas, do sol e do ar puro habitando
os locais onde estou. Não suporto ambientes semelhantes a salas de parto. Todo
ambiente que crio ou escolho para viver fogem totalmente desta concepção fria.
Com
o meu nascimento, começa o meu relacionamento com a minha primeira referência:
minha afetuosa mãe. Agora tínhamos um novo mundo que não se limitava apenas a nós duas. Ela teria que me ensinar a enfrenta-lo. Minha
mãe sempre foi muito amorosa. Soube compensar durante toda a minha vida com
amor, carinho e proteção o sentimento de abandono que senti nas minhas primeiras
horas de vida. A sua visão positiva e o seu otimismo exagerado frente a vida,
próprio de uma boa sagitariana, com
certeza, compensou o meu primeiro temor frente a vida ou do que estaria por vir.
Chegara
a hora dos meus pais começarem a fazer uma série de escolhas para mim, algumas
por mim aprovadas futuramente e outras não. A primeira feita em cartório foi a
do meu nome. Resolveram por bem registrar-me como Cláudia Luiza Alves Couto. Gostavam do nome Cláudia em moda
na época; Luiza por ser o nome da minha avó materna; Alves o sobrenome da minha
família materna e Couto o sobrenome da minha família paterna. Recebi um nome que determinou de alguma forma a minha história e a minha forma de ser.
SER Cláudia Luiza! Cláudia manca e Luiza guerreira: uma Manca Guerreira. Pode parecer estranho uma guerreira manca, mas dentro de meu enredo histórico faz todo sentido.
A segunda escolha aconteceu no dia do meu batismo. “Serás católica e seguirá os
princípios desta Igreja”. Me tornei neste momento uma criança católica sem
saber o que era ser católica, como usualmente acontece com muitas pessoas; se
tornam algo por imposição sem saberem o que aquilo representa. Mais tarde eu
haveria de saber o que representaria ser uma pessoa católica.
A
terceira escolha foi o meu apelido. A menina pequena deveria carinhosamente ser
chamada de Claudinha. Sempre me identifiquei com este apelido, muito mais do que
com o meu próprio nome. Nasce neste momento a Claudinha que jamais morreu.
Talvez Claudinha tenha eternizado a criança dentro de mim.
Muitas
outras escolhas vieram, cada qual no seu momento certo.” Serás uma menina
calma, meiga, alegre, educada, obediente, inteligente, responsável, pura,
enfim, um exemplo de virtudes para todos.” Será que eu encarnava realmente
todas estas qualidades ou passei a ser assim à partir do momento que me
revestiram destes adjetivos ? Somos por natureza ou passamos a ser ?
Nunca
ouvi meus pais dizerem que eu era nervosa, triste, agressiva, mal humorada,
irresponsável. Seria possível eu me tornar algo que nunca ouvi ser ?
Apesar
de meu pai sempre ter sido uma pessoa maravilhosa, o excesso de trabalho e o
seu jeito teimoso, sistemático e dominador, às vezes, o deixava nervoso e mal
humorado. Mas, minha convivência maior era com uma mãe sempre feliz, otimista,
calma e bem humorada. Em que daria esta mistura? Os limites do lado do papai e
os prazeres do lado da mamãe. Além das interferências que recebi nesta a vida,
com certeza acrescentaria as interferências de muitas outras. No final, será
possível detectar o resultado desta miscigenação? O fato é que esta criança
soube escutar todos os seus desígnios, só não sabia se daria conta de vivencia-los
plenamente. Presentear os pais com as virtudes que eles valorizavam era o seu
principal objetivo. A sua personalidade seguia rigorosamente as referências
virtuosas ditadas pela família, mas a sua alma por vezes sentia-se aprisionada
e se manifestava impetuosamente com algumas birras e com posturas bem ativas. E
assim restou a lembrança de uma criança boazinha e danada ao mesmo tempo. Qual
lado prevaleceria mais tarde ?
Até
este momento eu era a caçulinha dentre 3 irmãos. Tinha uma irmã acima de mim, a
Aída Mara, seguida de outros dois irmãos, o Rômulo e o José Márcio. Morávamos
na capital de Minas, Belo Horizonte, num apartamento sempre povoado por
inúmeras visitas. Meus pais sempre foram excelentes anfitriões. Mesmo com a
casa cheia de filhos, não faltava um lugar a mais para os que precisavam ir a
Belo Horizonte cuidar da saúde, estudar, passear, enfim, cuidar dos mais
variados assuntos pessoias e profissionais. Num apartamento de 3 quartos , havia espaço
para meus pais, 4 filhos, uma tia, algum primo ou sobrinho estudante e uma
variedade de visitas.
Claudinha
precisava crescer. Minha mãe se preocupava exageradamente com minha saúde
física e com minha alimentação.
_
Não fique descalça, não beba gelado, não tome sereno, fuja do vento, coma tudo,
não pegue friagem, enquanto não comer tudo não sai da mesa ...
Proteger-me
era o mais importante. Esta proteção me acabou transformando numa casca de ovo.
A casca só não quebrava por ser muito bem protegida pela galinha dos ovos de
ouro.
Papai,
sempre trabalhando, conseguia tirar aos domingos algumas horas para passear com
todos os filhos no centro da cidade, ou Pampulha, jardim zoológico. Previsíveis
os npssos passeios... Aliás, na vida do papai tudo era previsível e planejável.
A vida do papai e da mamãe era garantir o nosso futuro, cada um deles a seu modo.
A
personalidade de Claudinha se fixava em seus pais e sua alma no infinito. Tudo
muito complicado para uma criança entender. Lembro daquela criança sentindo sem
saber racionalizar como os adultos. Lutaria para se tornar um dia uma adulto
maduro e
conquistar a lógica da razão. Talvez a razão fosse a chave de todo o
entendimento. Criança acha que o adulto sabe coisas que ela não sabe, mas , na
verdade, são eles que sabem coisas que os adultos não ousam imaginar. Os
adultos sempre deletam de seu imaginário a lógica daquilo que a sua tão valiosa
razão não dá conta de explicar.
Restaram
desta fase lembranças sensoriais fantásticas como o balanço do ninar de meu pai
acompanhado de uma melodia suave que saía de seus lábios chiando ritmicamente:
_ xih... xih... xih...O papai bravo era também tão manso e carinhoso... Apesar
de ficar com medo de suas iras
descontroladas, sempre me senti protegida
e afagada ao lado dele.
Ficou
o cheiro das pessoas que eu amava e dos locais que amei, a aparência da comida
servida no dia do nascimento da minha irmã mais nova.
Derepente
minha mãe vai para o hospital e meu
irmão à Mercí, um grande supermercado da época, comprar uma banheirinha. O que tudo aquilo
representaria ? Representou repentinamente a chegada de mais uma criança na
minha casa, assim como a infinidade de visitas que chegava sempre em nossa
casa. Não me lembro de ter sido preparada para a chegada de mais uma irmãzinha.
Talvez, a mamãe tivesse muita vergonha de falar de sua gravidez. Como ela
explicaria a origem daquela criança em seu ventre? Com certeza, a minha
curiosidade infantil faria a tão famosa pergunta: Como é que o neném foi parar
aí? Acho que a mamãe ficaria corada de vergonha e sem respostas. Ela já era
proprietária de uma história de vida cheia de tabus sexuais. Será que eu teria
também os meus? Será que eu teria, também, facilidade de relatar, no futuro, a minha
gravidez aos meus pais?
A
minha irmãzinha chegou como mais uma visita em nossa casa. Vejo-me e
à minha irmã mais velha debruçada em seu berço a contemplar seu
rostinho. Oferecí a ela uma de minhas bonecas como presente. Que significado
aquela criança teria em minha vida ? Dentre alguns nomes, Maria Beatriz, Luciana
e Luciane; o último prevaleceu. Luciane era agora a caçula da casa. Não me
lembro de ter temido a sua chegada, sei apenas o que fiz anos a fio para jamais
deixar de ser uma filha amada e desejada. Será que aconteceu o mesmo com minha
irmã Aida Mara ?
Tem
uma cena que ficou anos a fio registrada na minha cabecinha de criança como um
ato cruel e sujo, mas que na verdade, não passava de uma mera curiosidade
infantil. Sentada ao chão, atrás do sofá da sala, brincando com a nova
caçulinha da casa, olho repentinamente para a carinha daquele bebê de mais ou
menos uns 8 meses, e, num impulso dou uma bicota em sua boca. Não me lembro da
minha intenção naquele momento. Talvez tivesse visto alguém se beijando em
algum lugar e quisesse vivenciar esta experiência. Mesmo, com 5 anos de idade,
eu sabia que estava fazendo algo errado. Errado segundo qual ponto de vista? Já
com 5 anos, já haviam incutido em mim um ponto de vista cruel, calcado em
medíocres repressões e tabus. Só fui compreender a curiosidade daquela criança
que habitou-me depois de adulta. Quanto tempo, meu superego cruel a manipulou
lembrando-a da coisa feia que havia feita com um bebê tão inocente. Me senti,
por muito tempo, uma estupradora de minha irmãzinha. Parece uma piada, criança
de 5 anos se sentir culpada. Mas, não é que aconteceu comigo? Para os adultos
que carregam lixo em suas cabeças doentes... Cuidado com a visão nojenta de
pudor e compostura que vocês passam a crianças que fazem parte da sua
convivência.
Ficaram
cenas interessantes registradas em minha mente. Numa delas, eu fingindo que
estava dormindo só para ser carregada no colo depois de ter chegado da casa de
campo da minha melhor coleguinha Sibele. Me dei mal! Ao chegar na porta do meu
apartamento, alguém gritou: Cuidado que o gatinho vai fugir! Dei um pulo do colo
de quem me carregava e gritei: Pega ele! –
Que vergonha! Fui desmascarada. Com certeza, todos os adultos ali
acharam graça. Provavelmente já até sabiam que eu estava fingindo. Criança não
sabe fechar os olhos direito para fingir que está dormindo, mas sabe, desde
muito cedo, ter a idéia de fingir algo só para ganhar um afago gostoso.
Estes
gatinhos também fazem parte de uma cena gostosa da infância. Todos os dias, eu
ia buscar, juntamente com minha querida mãe, a minha irmã Aída Mara na escola.
No caminho, vimos 3 gatinhos recém-nascidos e abandonados numa lata de lixo.
Insisti para que a minha mãe os levasse para a nossa casa e ela aceitou sem titubear. Minha
mãe sempre foi a assessora número um de São Francisco. Cuidou destes gatinhos
como se fossem um filho recém-nascido. Acho que eles deram mais trabalho que
minha irmã Luciane. Dava mamadeira de leite de hora em hora, não só durante o
dia, mas durante toda a madrugada até eles cresceram e virarem grandes gatos.
Levava-os para passear na rua. Era gato subindo em árvore, dando um trabalho
que só a Dona Aída é capaz de encarar. Depois de bem crescidos e ansiosos por
uma liberdade maior, foram levados para uma cidade do interior, a gostosa Rio
Casca, que vocês irão conhecer daqui uns tempos. Já desde pequenininha, recebi
grandes lições de solidariedade e bondade da minha maravilhosa mãe. Ela não
falava de bondade e solidariedade. Ela agia com extrema bondade e
solidariedade. Suas atitudes sempre me ensinaram a desenvolver, também, um
profundo respeito e amor aos animais. Para os pais que querem realmente educar
seus filhos... Ouvimos as palavras, mas são os exemplos que nos transformam e
nos movem.
Criança
tem mais medo da saudade do que do escuro. Em algum momento fui deixada na casa
de minha avó materna, em Ubá. Acho que foi quando meus pais resolveram fazer um
passeio ao Rio de Janeiro. Eu sabia que minha mãe iria voltar, só não sabia
direito, lidar com a falta dela. Lembro-me perfeitamente, dentro de um berço
remoendo uma saudade que não tinha fim. Sozinha, sem compartilha-la com
ninguém. Como eu era boazinha. Uma bondade que fazia mal ao meu coraçãozinho
infantil. Ah se eu soubesse disto na época!.. Eu abriria a boca para berrar e
exigir a presença de minha mãe. No entanto, lá estava eu dentro do berço, sozinha,
pensando na minha mãe, desejando-a intensamente, sentindo-me só, subtraída de
um grande amor que era naquela época um dos maiores alimentos para a minha
alma. Eu tinha, mais ou menos uns 3 anos de idade e já sabia me comportar como
um adulto. Por que eu não gritei? O máximo que conseguia era chorar escondido
para ninguém perceber. De dia eu brincava e esquecia da saudade e de noite eu
chorava, talvez aguardando a momento de rever o meu grande amor. Fica aí uma alerta
aos pais: Nem sempre a criança chora publicamente a sua dor.
Com
uma nova criança em casa eu passei a ocupar um novo espaço. Subitamente olho-me
no espelho e vejo um novo ser. Nasce junto com a Luciane, a menina Cláudia.
Tive que velar e enterrar a caçulinha que me habitava.

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