ADOLESCENTE...
CALADA E ALEGRE
COMPLEXADA E BONITA
_ Menina, sai
da frente deste espelho ! Isso não é normal !
Tudo
que eu queria era ser tão normal quanto as outras adolescentes, o espelho era o
meu instrumento de comparação e avaliação. No entanto, o que eu sentia era um
afastamento cada vez maior deste ideal de normalidade, a começar com a minha
relação com o espelho, principalmente tendo o outro como tal. Olhava
atentamente o corpo de minhas amigas. O meu corpo era rebelde, não seguia os
mesmos critérios de desenvolvimento. Isso me fazia sentir complexada. Queria
ser uma moça, mas meu corpo insistia em sustentar apenas a menina que existia
dentro de mim. É como se esta menina não pudesse morrer nunca, deixando
registros fortes para serem eternamente lembrados. A minha menstruação nunca
chegava, os meus seios nunca cresciam. Um belo rapaz jamais desejaria uma
menina. Complexos, timidez e muito silêncio... A menina esperava ansiosa a
chegada da moça. Quanta espera ! Aprendí a esperar, mas neste momento com muita
ansiedade.
Na
frente do espelho feria o meu rosto tentando arrancar todos os cravos que as
mudanças hormonais me ofereciam de presente. Sentia prazer em colocar para fora
aquilo que estava contido. Talvez estivesse mesmo era espremendo esta moça
contida. As minhas unhas encravadas representavam esta moça encravada dentro de
mim. Ela precisava se soltar. As minhas seborréias denotavam as minhas
insatisfações diante de tantas erupções emocionais. Conflitos de adolescente...
Eis alguns:
Como poderia dar o meu primeiro beijo sem ser ainda
uma moça ?
Menina não namora, pode ser pecado menina dar beijo na
boca de verdade.
E se o rapaz descobrir que não sou uma moça ? Que
tragédia !
Meus peitinhos michurucos jamais agradariam aos rapazes. Ainda bem que
moça direita não se deixa ser tocada nesta área .
Se eu usar colant a menina aparece. Como vou me
adaptar a esta moda ?
O jeito é ficar caladinha para ninguém descobrir o meu
segredo. Faça de conta que sou uma moça !
E
foi assim que dei o meu primeiro beijo na boca; sem ser moça , mas fingindo
sê-la. Com quase 15 anos acaba o fingimento, ganho de presente a minha primeira
menstruação. E o meus peitinhos ? Jamais alcançaram o tamanho do meu desejo. A
menina resistiu !
A
minha primeira paixão não foi correspondida. Achava que era por culpa da
menina. O garotão pelo qual me apaixonei não tinha olhos para mim. Como é que
poderia enxergar uma menina magra e tímida que dificilmente se expressava ? O
seu desejo era todo voltado para as minhas amigas com corpo e jeito de moça.
Ieié era o seu apelido e Carlos Alberto o seu nome. Ieié era um garoto alegre,
livre e para frente. Claudinha era uma menia alegre, porém presa em sí mesma e
sentindo-se sempre para trás. Queria tanto ser desejada pelo Ieié, mas não
tinha a astúcia e a maldade de minhas amigas. Elas sabiam falar palavrões e
sabiam tudo sobre sexo. Sobre sexo eu fingia saber alguma coisa e falar
palavrões nunca conseguí. Ficava atenta a tudo que falavam e acaba aprendendo
no sopetão tendo que tirar as minhas próprias conclusões. Jamais perguntava
nada a respeito para não parecer tola e ingênua demais. Lembro-me nitidamente
do meu desconcertamento numa destas descobertas abruptas na área da
sexualidade. Estava cursando já a 8ª série quando um grupo de colegas chegaram
eufóricas anunciando a descoberta de uma camisinha numa das salas do colégio.
Não entendí como uma camisinha pudesse causar tanta euforia e surpresa na
cabeça daquelas adolescentes. Fui com as mesmas até o local da descoberta para
checar o produto. Chegando lá não encontrei o que a minha ingenuidade imaginava
e desapontada e confusa exclamei sem pensar : - O que é isso ?
Minhas amigas riram e perguntaram sarcasticamente: -
Ah, você não sabe o que é isto ?
A euforia delas me cheirava sexualidade. Assim
consertei a minha lamentável ignorância sexual denotando uma expressão de quem
apenas não tinha verificado atentamente o produto, mas que na verdade possuia
um bom conhecimento do mesmo : Oh ! É claro ! Não tinha reparado direito. É
camisinha !
Aprendí neste dia que camisinha não é necessariamente
uma camisa pequena e que provavelmente vestia algum orgão sexual
Descobrí
que precisava ficar mais esperta para ser desejada pelo Ieié. Percebia que
aquele não era ainda o meu momento, mas desenvolví sem explicação uma certeza
de que um dia ainda seria desejada e amada
por ele.
Quando desistí de tê-lo, olhei para ele e pensei
enfaticamente : - Um dia serás apaixonado por mim e não desejarei tê-lo !
Que
desejo de puni-lo ! Talvez por desejar que fosse o meu primeiro namorado e que
me desse romanticamente o meu primeiro beijo na boca. Mal sabia neste momento
que mais tarde ele assumiria o 1 º lugar em muitas coisas em minha vida. Ieié
neste momento jamais me desprezou, ele simplesmente não me enxergava, o que me
fazia sentir-me insignificante. Lutaria para ser mais tarde uma mulher
significante e desejada.
A chegada de minha primeira menstruação
coincide com o período em que me mudei novamente para Belo Horizonte para
cursar o 2º grau. A mudança de cidade coincide com uma série de mudanças
corporais e até mesmo de mentalidade.
Volto para a cidade grande e volto a
sentir-me novamente presa em uma gaiola apertada. Voltam todos os conflitos da
infância. Não consigo interagir-me satisfatoriamente com outras colegas,
apresentando dificuldades para fazer novas amizades. Os meus relacionamentos se
restringiam a amizades superficiais em sala de aula. Todas as minhas amigas
ficaram em Rio Casca, precisava fazer novas amizades e não conseguia. Não
conseguia me identificar com as garotas da cidade grande. Elas eram tão
diferentes... Me identificava mais com as colegas também vindas do interior.
Saía pouco e estudava bastante.
Encontrei pela primeira vez
dificuldades nos estudos. Perdí três médias já no primeiro bimestre. Pela
primeira vez Claudinha fracassou nos
estudos e deixou de ser a primeira da classe. O ensino público de Rio Casca era
muito fraco me proporcionando pouca base para enfrentar um colégio particular.
Os meus fracassos nos estudos ao invés de causar-me frustrações proporcionou
relaxamento. Nunca mais me preocupei em ser a primeira. Me contentava com a
média e me preocupava apenas em passar direto sem recuperações para poder gozar
mais as minhas férias. Nunca tomei uma recuperação em minha vida podendo me
deliciar com minhas longas férias. Agora eu poderia ser a média como a maioria,
ser igual, não ser tão diferente.
O meu sonho agora era sempre que
possível ir para Rio Casca e aproveitar ao máximo cada minuto. Belo Horizonte
representava meu compromisso com o dever e Rio Casca meu compromisso com o
prazer.
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