MENINA
...
TÍMIDA
E DETERMINADA
FRÁGIL
E FORTE
Chegara
a hora da menina ir para a escola. A minha mãe sempre muito dedicada preparou
impecavelmente o meu material escolar e o meu uniforme. Lá fui eu para o Grupo
Afonso Pena com uma pequena pasta preta na mão, sapato preto devidamente
engraxado, meia branca três quartos, uniforme azul marinho com saias preguiadas
e o nome Cláudia Luiza bordado no peito.
Não
me lembro como fui deixada naquela escola no meu primeiro dia de aula, mas
lembro-me perfeitamente saindo de dentro dela ansiosa por encontrar a minha mãe
no portão. Foi terrível ficar distante de minha querida mãezinha por quatro
horas, não desejava voltar nunca mais naquele lugar. Meus olhinhos radiaram de
alegria quando ví minha mãe chegando. Olhei em seus olhos e ví a luz do
entusiasmo, da alegria e da satisfação em seus olhos. Sua expressão denotava
uma expectativa positiva com relação ao desempenho de sua filha em seu primeiro
dia de aula. Repleta de júbilo foi logo me perguntando: _ Gostou, filhinha ?
Não
tive coragem de desapontar minha mãezinha. Apesar do meu total desapontamento
deveria mostrar uma personalidade bem adaptada àquela situação nova e
desprazerosa para mim, no entanto, importante demais para os meus pais. O meu
superego superdesenvolvido pronunciava o
seu enfático discurso:
_
Serás sempre a filha perfeita, boazinha e bem adaptada !
A
minha alma insatisfeita se debatia e eu
sentia no peito as dores de seu desconforto. Tímida e sempre em silêncio era
vencida pelo superego ditador. Parecia não Ter forças para lutar com meu
superego deixando-o prevalecer. Assim, acuada, abaixei o meu olhar para que
minha mãe não enxergasse a minha verdade e respondí timidamente com um
movimento afirmativo de cabeça.
_
Eu sabia que você iria gostar. Comentou alegremente a minha mãe. A mamãe sempre
teve uma qualidade ou um defeito marcante; na verdade, qualidade e defeito
dependendo do contexto – Mamãe sempre optou por enxergar apenas a felicidade.
Assim, nem sempre conseguiu se deparar frente a frente com a tristeza dentro de
mim. A sua expectativa com relação a mim
no meu primeiro dia de aula jamais a deixaria enxergar a minha verdade.- que eu
havia detestado a escola e estava
tremendamente infeliz e assustada no ambiente
escolar. Aprendi neste momento que as expectativas matam o que o outro
realmente é e sente. As expectativas da mamãe calavam os meus reais sentimentos
fazendo de mim uma aluna exemplar para a época – a menina calada que jamais
criaria confusão com a professora ou com qualquer coleguinha.
Meu
superego continuou:
_
Seus pais saberão sempre o que deve ou não gostar. Para que seja amada, esta
será sempre a sua verdade.
Perdí
a garantia do meu amor, mas ganhei a garantia do amor de meus pais, e isto era
tudo que eu queria naquele momento. Achei que acabaria por me acostumar e
gostar da escola. Ia todos os dias com a esperança de me adaptar realmente
àquele espaço restrito demais para os anseios de minha alma.
Achava
linda a minha professora, ainda hoje guardo a memória olfativa de seu perfume.
Tinha vários colegas mas não tinha coragem de me interagir com eles. Era a
primeira da fila, a mais miúda, a mais calada. Teria que calar a minha alma
para não correr riscos. Me determinei a expressar-me de outras formas. Ser a
mais inteligente, a mais disciplinada, tirar boas notas era uma boa saída para
quem se sentia tão acuada. Morria de medo de uma colega negra grandalhona que
usava duas longas tranças. Ela me beliscava todos os dias. De tão calada que eu
era, nunca tive coragem de denuncia-la. Ela se transformou num fantasma em
minha vida. Talvez quisesse com estes beliscões me tirar da inércia em que me
encontrava, talvez dissesse para mim o tempo todo: _ Acorde, Cláudia Luiza !
Porém, naquele tempo, não entendi a sua mensagem. Tive muita raiva e muito medo
desta colega malvada, hoje lhe agradeço afetuosamente, pois foi sem saber o meu
primeiro sinal de alerta. Ai! Como doíam aqueles beliscões fininhos... pareciam
picada de formiga. Uma formiga só me tiçando e me picando não foi suficiente para
me fazer gritar. Acho que eu precisava mesmo era do ataque de um formigueiro
inteiro. Aprendi a suportar bem o ataque de formigas solitárias e a lidar bem
com a dor de suas picadas. Hoje sei que esta resistência a dor nem sempre é
boa. Para ser forte escondi a minha fragilidade. Fingi que ela não existia.
Escondida dentro de mim, não soube encontrá-la em alguns momentos importantes
de minha vida. Há momentos que precisamos
dela para descansarmos. De posse de nossa fragilidade encontramos colo,
afago, proteção. Muitas das estagnações energéticas que tenho hoje criaram suas
raízes neste solo duro que se forma quando
a fragilidade não pode entrar em cena.
Até para tomar injeções eu era uma boa menina. Não reclamava e não fazia nem mesmo cara feia. Virava o rostinho para o lado oferecendo meus raquíticos bracinhos para no final ouvir a mamãe dizer:
_ Essa menina é muito boazinha ! E ao mesmo tempo – Muito forte e valente esta menina. Não tem medo de injeções! E, como eu gostava de ser valente... Nesta época, eu não conhecia ainda meu lado ariano. Se eu o conhecesse, talvez eu tivesse esmagado aquela formiga.
No
ano seguinte mudei de escola, fui estudar no Grupo Escolar Barão do Rio Branco.
Era uma criança fora da “ faixa etária “, não possuía a idade regulamentada
para iniciar o meu primeiro ano primário. Mais um desafio
! Provar a todos que não ficaria de fora, que estaria dentro dos padrões
estabelecidos pela escola. Fui rejeitada por algumas escolas e aceita por esta.
Deveria provar a minha eficiência. Tão pequena e já se cobrando provar tantas
coisas. Não me lembro de nenhum colega, mas lembro-me perfeitamente da cara
fechada da minha professora Maria Auxiliadora que não me auxiliou em quase
nada. Descobri a solidão nesta escola. Talvez tenha sido este o meu maior
aprendizado neste período. Nunca fui auxiliada por dona Auxiliadora a
interagir-me com meus colegas e superar a minha timidez e a solidão que me
devorava principalmente durante o recreio. Tinha o meu lugar reservado dentro
da sala de aula e me sentia desapropriada tão logo batia o sino como uma sirene de ambulância anunciando o
recreio. Qual o meu lugar naquele pátio repleto de crianças. Procurei uma
árvore bem frondosa. E lá, debaixo defronte de seu tronco robusto e debaixo de
seus galhos acolhedores, a menina
Cláudia se isolava sentindo-se, de certa forma, mais protegida. Hoje,
compreendo que inconscientemente eu buscava a segurança e o afago de minha mãe representada simbolicamente por
aquele linda árvore. A menina que brincava tanto em casa não conseguia se mover
durante o recreio.
Mamãe
me buscava todos os dias. Chegava sempre radiante de alegria e com muito
interesse perguntava-me sobre o meu dia. Jamais tive coragem de dizer a ela que
detestava aquela escola, que sofria e sentia-me aprisionada. Como de costume a
minha alma sempre se silenciava diante dos berros do meu superego manipulador:
_” Mostre com boas notas o quanto você
se adaptou, o quanto é inteligente, responsável e interessada por esta escola”.
Os
meus boletins eram ótimos e mostravam o quanto eu estava dentro dos padrões
exigidos e esperados por todos. Assim, tudo indicava que a vida corria bem.
Soube enganar a todos e ainda mais a eu mesma. Naquela época a maioria das
pessoas e a própria escola não sabiam fazer uma leitura do óbvio. Entendiam
apenas o B, A, BA das notas. Educar era formar fantoches. Aliás, ainda hoje, as
escolas se escondem atrás das notas, provas, boletins, pois avaliar um aluno
através de uma relação mais próxima com
o mesmo dá muito trabalho. Conhecer verdadeiramente o aluno e aquilo que ele
realmente sabe e ignora é bem mais difícil do que corrigir provas de múltipla
escolha. Se comprometer a auxiliar o aprendiz a vencer as suas dificuldades é
bem mais difícil do que impor ao mesmo que repita a série obrigando-o a rever
coisas que ele não suporta.
Passaram-se 28 anos e a educação mostrou ter pernas
curtas. Ainda tropeça e machuca muita gente .Sonho com uma educação que ao
invés de aprisionar, liberte muitas Claudinhas.
Em casa , brincava e demonstrava a minha
força. Achava o máximo ser fisicamente mais forte que a minha irmã Ainda Mara.
Através de brincadeiras, lutava, combatia e vencia a figura mais elogiada
intelectualmente dentro da nossa casa. Ainda Mara era a representante do
intelecto e Claudinha a representante da força e da esperteza. Nunca fui uma
criança agressiva apesar de destruir simbolicamente com minha alma de guerreira
a representante intelectual da família. Era reforçada pelo meu irmão Rômulo.
Acho que ele elaborava através de mim, conflitos semelhantes em relação ao José
Márcio, o geninho da família.
As guerras aconteciam apenas no espaço
lúdico permitindo que a rotina familiar fosse sempre caracterizada por muita
harmonia, afetuosidade e paz. Depois da guerra ludica, a docilidade e a doçura
tomavam conta de mim. Brincando o meu id se expressava e o meu ego se
fortalecia.
Talvez tenha tomado nesta época as
primeiras lições sobre a importância do brincar na vida de todo ser humano.
***
Repentinamente descubro em
meu corpo um novo prazer. Não me lembro quando e como o sentí pela primeira
vez, sei apenas que jamais abrí mão dele apesar das censuras. Descobrí o
orgasmo nesta fase da minha infância e me permitia tê-lo com muita frequência.
Me masturbava e me deliciava com as sensações prazerosas deste ato. Comecei a
ser censurada por minha família. Diziam que eu estava “ apertando perereca “.
Comecei a viver a recriminação e a proibição. A descoberta da minha sexualidade
passa a ser encarada como uma experiência
pecaminosa. Não conseguia parar de pecar e descobrí o sentimento de culpa. Me
sentia diferente e anormal, com isso a ansiedade crescia e de mais prazer eu
carecia. Tentava esconder de todos o meu pecado, só não conseguia esconder
de eu mesma. Optei por ele até descobrir
já na universidade que ele nunca existiu. Teria sido poupada se tivesse feito
esta descoberta mais cedo. Fui determinada quando optei por queimar no inferno
a Ter que apagar a chama do prazer que descobrí dentro de mim. Ainda bem que descobrí
a tempo que o inferno só existia na cabeça daqueles que mutilaram a sua
sexualidade. Quantas mulheres foram mutiladas no momento desta descoberta criando uma imagem assexuada de sí mesma. Uma
mulher impotente jamais será uma ameaça para os machões que só conseguem se
afirmar enquanto macho diante de um ser que amputou a força feminina capaz de
desnudar o verdadeiro homem.
***
Apesar de Ter nascido na capital sempre
tive uma alma matuta. Viví até meus 7 anos em Belo Horizonte fazendo piquenique
debaixo do prédio da esquina e subindo e descendo do elevador do prédio ao
lado. Brincava muito, mas o meu limite era sempre quatro paredes. Não sabia o
que era fazer piquenique no campo e subir e descer de árvores. Além da minha
irmã Aida Mara, tinha uma única amiga chamada Sibele. Éramos inseparáveis, no
entanto, o destino nos separou e não nos uniu mais quando me mudei para Rio
Casca, uma pequena cidade do interior de Minas. Com esta mudança, meu pai
iniciava uma nova vida profissional com novas perspectivas e eu nascia
novamente. Minha alma passou a encontrar um novo espaço para expressar
livremente o seu lado matuto. Vivia um espaço apertado na cidade grande e agora
a pequena cidade do interior me presenteava com um amplo espaço. Que paradoxo!
Comecei a entender aí as contradições. Nem tudo que é grande é espaçoso.
Fui morar num casarão antigo
completamente diferente da minha morada anterior. Agora eu morava numa casa com
piso de tábua corrida encerado bem diferente dos tacos sintecados do
apartamento. O corredor era comprido, os portais altos e bons para escalar, o
teto forrado em madeira se diferenciava muito da laje de concreto e o terreiro
com quintal e fogão à lenha era
exclusivamente nosso, sem as costumeiras regras de condomínio que limitavam tanto
a nossa vida lúdica. Sair de um apartamento para vir morar num espaçoso casarão
era como ser transferida de uma gaiola apertada para um amplo viveiro de portas abertas. Sentia
cada espaço da nova casa como se fosse uma conquista de território novo. Comecei
a exercitar com prazer no fogão à lenha a arte da culinária que por força do
destino ficou na lembrança apenas como
agradável brincadeira de criança. Como obrigação de adulto jamais foi
exercitada com prazer. Nadar nas extensas caixas d’agua, esconder dentro dos
armários que não eram embutidos na parede, escalar os portais de madira,
brincar de bola no extenso corredor da casa, fugir amedrontada dos morcegos
que escapavam através dos enfeites
vazados do forro de madeira eram novidades que deixaram agradáveis lembranças.
Ficou o cheiro do lodo das caixas d’agua e do armazém abaixo do nosso casarão,
o medo de morcegos e muitas outras lembranças significativas. Hoje, lodo tem
cheiro de infância e o medo de morcego
ao invés de gerar pavor me diverte.
Tive
a oportunidade de criar muitos animais.
Pombas, passarinhos, galinhas e galos foram os meus primeiros animais
domésticos. Os gatos eram os meus
animais prediletos, aprendí com eles o sentido de coisas fundamentais nesta
vida. A minha primeira gata, a Teteia era na verdade um gato. Não sei se esse
erro em sua identidade sexual trouxe danos à sua sexualidade, mas aprendí com
este engano a diferenciar um macho de uma fêmea. Com o decorrer alguns enganos viria me possibilitar
diferenciar um macho de um homem e uma fêmea de uma mulher. Teteia possuia uma
docilidade incomum para gatos machos, talvez tenha desenvolvido mais o seu lado
feminino por ter sido criado como se fosse uma fêmea. Isto me faz pensar que
muitos machões precisam de um toque feminino para se tornarem homens sensíveis,
menos agressivos e ariscos; homens que não temam o amor e a entrega.
Com
Teteia aprendí o significado da fé. Num certo dia Teteia foi roubada, nem os
policiais conseguiram dar fé de minha querida gatinha. Traumatizada diante de
minha primeira perda significativa e certa de que os adultos não teriam
disponibilidade para resolver o meu problema, desenvolví naturalmente dentro de
mim a fé inabalável de que teria a minha
gata de volta. Com a companhia de uma amiga chamada Maria Teresa resolví
intuitivamente procurar a minha gata num bairro mais distante e pobre da
cidade. Sem que minha mãe soubesse, durante à noite rodadva por rua escuras,
estreitas e às vezes desertas
perguntando de casa em casa se haviam visto uma gata preta e branca com uma
pintinha no nariz. Ninguém acreditava que eu pudesse encontar a minha gata, só
eu e Maria Teresa. Na terceira noite , repentinamente, ela passou correndo
entrando dentro de uma casa situada em uma das escuras ruas deste bairro. Corrí
até a casa e fiz novamente a mesma pergunta já repetida dezenas de vezes certa
de que agora eu teria a resposta tão esperada. Os moradores desta casa
atenciosamente me levaram até a cozinha para que eu pudesse verificar se o novo
animal que aparecera por alí era a gata que procurava. Corrí para a cozinha
certa de reconhecê-la e gritei entusiasticamente: -Tetéia !
Tetéia também me reconheceu
cumprimentando-me com um gracioso miado. Peguei minha gata que na verdade era
um gato, cruzei a cidade com ela em meu colo e já na praça onde brincavam, minha
irmã Ainda Mara e algumas colegas gritei euforicamente: _ Achei a Tetéia !
Nem as crianças e nem os adultos
acreditavam no que viram. Descobrí neste momento que bastava apenas a minha fé
para que eu pudesse ir atrás e encontrar tudo que desejasse nesta vida. Sempre
ouví dizer que a fé move montanhas, mas descobrí que ela move algo muito maior
, ela nos move. Sem ela nos transformamos em um ser estático, árido em
esperança e impotente para transformar.
Com Tetéia nos braços não transformei o mundo, mas transformei naquele momento
a minha tristeza em alegria.
Se o ser humano se prontificasse a
transformar pelo menos seus sentimentos teríamos um mundo com certeza bem
melhor.
Minha mãe abismada com o ocorrido
descobrira naquele momento por onde andara sua filha por três noites
consecutivas. Tive que omitir minhas andanças para que os adultos não
enfraquecessem a minha fé e a minha disposição mostrando-me os perigos e as
fantasias ameaçadoras que rondam suas cabeças. A negatividade do outro é sempre
um impecilho para nossas conquistas se deixarmos nos abater por elas.
Logo depois de Teteia tive uma outra
gata ainda mais amada chamada Mimosa. Era uma gata preta, mestiça angorá. Com
Mimosa pude perceber que os animais vivenciam e expressam sentimentos profundos.
Percebí tudo isto através de seu olhar. No seu primeiro parto Mimosa chorou de
emoção e preocupação solicitando que eu ficasse a seu lado cantando. E,
cantando, eu presenciei todos os seus partos e nascimento de seus filhotes.
Mimosa foi a minha primeira professora de educação sexual. Aprendí com ela
sobre a concepção, gestação, parto e amamentação. Os animais nos falam sem
constrangimento de muitos assuntos tabus em nossa sociedade, vale a pena fazer
um curso com eles.
Mimosa além de minha educadora era também a minha protetora.
Dormia em minha cama e jamais permitia que qualquer perigo me ameaçasse. Diante
do perigo sua doçura se transformava em instinto selvagem.
Nunca presenciei a morte dos animais que
amei profundamente. Teteia foi dada como desaparecida e Mimosa levada para
longe de mim depois de velha antes que a morte nos separasse. Meu pai a levou
para um restaurante de seu posto de gasolina onde teria comida com fartura mas
carência de afeto. Apesar de poder vê-la quando quizesse sofrí uma crise depressiva
significativa. Na ocasião não sabia o que viria a ser uma depressão, mas sentí
perfeitamente o presságio dela. Subia no pé de abacate da nossa casa nova e
calada pensava na minha primeira perda e
nos sentimentos que a minha velha gatinha estaria vivenciando. O meu pensamento
de criança atribuia aos sentimentos de Mimosa a mesma intensidade e significado
que os meus. Sentindo-me culpada por Ter permitido este abandono e sem forças
para enfrentar o seu olhar, afastei-me definitivamente do meu amor. Não lutei para tê-la comigo e sofrí
profundamente com isso. Prometí a mim
que pelo resto de minha vida jamais omitiria o meu amor. Lutaria por ele mesmo
que tivesse que enfrentar ou magoar as pessoas mais queridas de minha vida.
Nesta época mudamos para nossa casa
nova construída exclusivamente para
atender as necessidades da nossa família. Apesar de Ter amado profundamente
esta casa, ela jamais teve a magia do meu primeiro casarão.
***********
A minha vida escolar mudou consideravelmente. Possuia vários colegas e me interagia bem com todos
eles. A escola era bem familiar, chegava a lanchar em casa sempre que
desejasse. Nunca conseguí deixar de ser a aluna disciplinada, responsável e
aplicada. Jamais daria motivos para ser chamada a atenção ou colocada de
castigos. No entanto, por mais que a gente evite a vida sempre nos oferece
situações traumáticas para que possamos aprender um pouco mais com elas. Os
traumas ao invés de bloqueios deveriam se transformar sempre em aprendizados
positivos para o nosso desenvolvimento pessoal. Na 4ª série primária pude
vivenciar mais um trauma que ao invés de bloquear-me ensinou-me muitas coisas.
Existem professores que só conseguem educar traumatizando seu aluno. Nestes
casos é fundamental que o aprendiz tenha a capacidade de discernir e enxergar a
educação pelo avesso, ou seja, aprender sobre tudo que não se deve aprender.
Foi o que aconteceu comigo. A minha professora de 4ª série me ensinou tudo o
que não se deve aprender com sua prática educacional caduca e preconceituosa.
Pela primeira vez tive uma professora que não gostava de mim apesar de nunca
Ter lhe dado motivos para isto. Talvez eu tenha sido um instrumento de projeção
de todas as suas insatisfações. Aprendí com esta professora que não precisamos fazer nada para sermos
rejeitados ou odiados, basta apenas que o outro seja uma pessoa mal resolvida e
carregado de ressentimentos, insatisfações e todos os tipos de sentimentos
negativos. Passei a ser um espelho para
a alma daquela pseudo educadora ressentida com a vida. O seu primeiro golpe
sobre mim foi colocar-me de castigo durante o recreio sem merenda durante três
dias exposta a todos de forma humilhante no corredor da escola. O motivo
alegado foi a minha não participação em uma atividade catequista que em nada
tinha haver com o currículo escolar. Somatizei a humilhação que sentí com uma
forte dor de cabeça que não se repetiu nos próximos dois dias que faltavam do
castigo. Pela primeira vez meu pai foi à escola tirar satisfações e defender-me
das tiranias de um educador déspota. Sentí-me protegida e satisfeita com essa
atitude paterna que só fez aumentar o ódio
da minha professora e a preparação de um terreno fértil para a próxima
vingança. Passado pouco tempo, chegara a hora da escola revistar a cabeça de
todas as crianças com o intuito de eliminar os piolhos. Ao invés de eliminar
piolhos acabavam em muitos casos eliminando a auto-estima de muitas crianças.
Eu tive o azar de ser uma das escolhidas. Toda criança que tivesse piolho pagaria
por seu crime uma pena calcada na humilhação de ser expulsa por três dias até
eliminar todos os seus parasitas. Para não correr este risco, minha cabeça foi
cuidadosamente revistada por várias pessoas de minha casa. Cuidei de meus
cabelos como se estivesse indo para uma festa e tranquilamente partí para a
escola. Estava segura e despreocupada, no entanto, ao ser revistada pela
professora minha tranquilidade se transformou em desespero. Com seus olhos
cheios de maldade conseguiu enxergar uma infinidade de lêndias em meus cabelos.
Com uma mistura de ódio e sarcasmo mandou que eu me retirasse e retornasse à
escola apenas quando eu eliminasse todos os meus piolhos. Saí da sala de aula
cabisbaixa sem coragem de olhar nos olhos de meus colegas. Humilhada partí para
a casa cheia de revolta em meu coração, chorando e acusando a minha mãe pela
suposta negligência para comigo.
Indignada e confusa revistou novamente a minha cabeça
e partiu imediatamente para a escola furiosa como uma leoa a defender sua cria.
Nunca havia visto anteriormente o lado fera da minha mãe sempre dócil e
tranquila. Lembro-me de suas palavras firmes dirigidas a todos os educadores da
escola:_- Quero que todos catem piolho na cabeça da minha filha. Se acharem uma
lêndia ou piolho que seja, eu cômo ele !
Diante desta cena, percebí que o nosso lado fera deve
sempre se manifestar em ambientes selvagens para que não sejamos devorados pelo
ódio e pelo despotismo alheio. Naquele momento uma falsa educadora estava sendo
desmascarada e eu separada de meus colegas que me acompanharam desde a 2ª
série. Jamais tornei-me novamente vítima daquela professora e espero que ela
não tenha eleito outras. Continuei na mesma escola, mas mudei de turno. Passei
a Ter novos colegas e uma nova
professora com a qual me identifiquei muito. O seu nome era Luísa, assim como
parte do meu. Depois de tanta guerra a paz estava de volta. Nesta guerra
aprendí muito mais a ser defendida do que lutar propriamente. Este aprendizado
talvez pudesse mais tarde me auxiliar no exercício de defesa em prol dos mais fracos.
O
tempo passava e eu me sentia cada vez mais livre. A pacata Rio Casca me tornava uma criança cada vez mais ativa e
energética. Explorava sem medo cada espaço da minha pequena cidade. Para mim
ela era muito grande, bem maior do que a grande Belo Horizonte que limitara
tanto a minha vida de criança.
Os
meus piqueniques já não eram mais realizados debaixo de escadas sombrias. Agora
eu tinha a natureza e o sol. Já não era mais necessário subir e descer de elevador, podia descer e subir com minhas
próprias pernas lindas montanhas. Não era mais necessário fantasiar os perigos,
eles se apresentavam de frente mesmo sem a minha autorização. Aprendí a fugir e
enfrentar boiadas, cobras e muitos outros estimulantes perigos. Me saía muito
bem deles e fui gradativamente aprendendo a ser uma pessoa cada vez mais
corajosa. Comecei a achar estimulante desafiar o medo e sair vitoriosa, fazendo
crescer cada vez mais a fé na guerreira que residia dentro de mim
Brincar
era a minha principal atividade. As brincadeiras deveriam ser desafiadoras e
movimentadas. O movimento passou a ser uma característica de minha alma e à
partir daí nunca mais parei. Estar em movimento me permitia sentir mais a vida,
pois viver é estar em movimento.
Quem está parado está de certa forma meio morto. Gostava de lutar e aprendí a lutar para
vencer. Gostava de esportes e aprendí a competir, a perder e ganhar. Gostava da
natureza e aprendí com ela a Ter naturalidade. Gostava de andar de bicicleta e
aprendí a Ter mais equilíbrio. Gostava de meus amigos e amigas e aprendí a me
relacionar. Enfim, gostava de tudo que amo hoje. Gostando de gostar tanto,
aprendí a amar.
Com
tantos aprendizados, só não aprendí a lidar com a morte. Eis a única coisa que
eu realmente temia. Morria de medo de perder minha mãe, meu pai ou qualquer
outra pessoa que amasse muito. Nem pensava em minha morte de tanto medo que
tinha da morte daqueles que amava. Rezava para evitar isto, mas a minha reza
era muito mais uma obrigação e uma barganha do que propriamente uma relação com
Deus. Nesta época me ensinaram sobre Deus ao invés de buscar aprender
diretamente com ele os seus ensinamentos. Aprendí a temer a Deus sobre todas as
coisas. Deus era a morte, jamais a vida. Deus era uma obrigação, jamais o
prazer. Depois dos ditos ensinamentos religiosos deveria passar a percebê-lo
como um homem autoritário, manipulador, ditador e proprietário de todas as
coisas. Antes disto ele era naturalmente uma presença viva, forte e acolhedora
em minha vida. Agora existia um Deus demoníaco pronto para julgar-me e
punir-me. Temia que seu castigo predileto pudesse ser a morte. Não conseguia
gostar deste Deus sentindo-me culpada e temerosa de tornar-me a sua próxima
vítima. Aguadei por muitos anos o seu castigo, no entanto, jamais fui castigada
por ele.. E, foi assim que fui descobrindo que o Deus dos livros e da cabeça
das catequistas era bem diferente do Deus que habitava o meu coração. “Deus de
infinita beleza e poder “. Meu coração deveria crescer infinitamente para
acolhe-lo dentro de mim tamanha sua grandeza.
E as
minhas férias ? Passava em ponte Nova na
casa do vovô Teófilo e tias paternas. Lá deveria prevalecer a obediência e as boas maneiras. A lei era a “lei”. No
entanto, férias combinava mesmo era com o nome mais especial da minha infância:
“ZICA”. Vovó Luiza ? Não, vovó Zica ! Herdei o Luiza e restou o Zica.
Zica, o sonho de todo neto
Zica, o sim
Zica, a doação
Zica, a alegria
Zica, o pode tudo
Zica, a fartura
Zica, a espontaneidade
Zica, o amor
Zica, a alimentação
Zica, a expressão
Zica, a aventura
Zica, o movimento
Zica, a criatividade
Zica, a brincadeira
Zica, o natal com Papai noel
Zica, a artiosidade
Zica, a infância que toda criança deseja e precisa
Zica, vovó Zica, lição simples e profunda
Com
vovó Zica a lei era o prazer. Deixou saudades e muitas lembranças agradáveis. A
minha infância termina aqui. Vovó Zica partiu e com ela a minha meninice.
Talvez tenha ido para um mundo mais parecido com ela. Talvez esteja preparando
crianças pois este nosso mundo precisa muito delas.
“Vovó
Zica, a minha infãncia se foi, mas a criança continua viva aqui dentro de mim.
Me orgulho de Ter sido a neta mais parecida com você. Quando criança me
desagradava pensar ser parecida com uma pessoa velha. Coisas de criança ! Hoje
me agrada profundamente parecer com um ser tão jovem. Você não envelheceu por
causa da criança. Te tenho muito viva. A morte não existiu, apenas um momento
de descanso para a próxima brincadeira. Haveremos de brincar muito ainda.
Eternamente...”
Chorei
muito quando vovó Zica se foi levando a minha infância. Não quis participar
ativamente do funeral, neguei com isto enterrar a minha criança. Assim , ela
continua brincando aqui dentro de mim.
Ubá
jamais seria a mesma cidade sem a vovó Zica. Ficou o vovô Tote, meus queridos primos
e a engraçada Tia Maria Luiza. No entanto, tudo mudou com o adeus da vovò que
marcou para sempre a nossa vida . Percebí com isto que quando um grande amor se
vai muda-se definitivamente o capítulo de nossa história.