domingo, 3 de março de 2019

MEUS MOMENTOS

Criança...
Calma e ativa
Birrenta e meiga

Menina...
Tímida e determinada
Frágil e forte

Adolescente...
Calada e alegre
Complexada e bonita

Jovem...
Romântica e sedutora
Pueril e sagaz

Mulher...
Mãe e amante
Profissional e aventureira

Cresceu, cresceu...
Um pouco criança
Um pouco menina
Um pouco adolescente
Um pouco jovem
Um pouco mulher

Buscou o certo
Encontrou o incerto
E a sua sabedoria

Buscou a verdade absoluta
Encontrou a verdade relativa
E a sua verdade

Buscou a princesa
Encontrou a feiticeira
E a sua magia

Buscou as retas
Encontrou as curvas
E a sua flexibilidade

Buscou segurança
Encontrou o medo
E a sua coragem

Buscou a compreensão
Encontrou o julgamento
E a sua empatia

Buscou o encontro
Encontrou o desencontro
E a si mesma

Enfim, quis transformar o mundo
E acabou transformando si mesma
E isto já basta ?


ADOLESCÊNCIA


ADOLESCENTE...
CALADA E ALEGRE
COMPLEXADA E BONITA



  O espelho foi o meu grande companheiro na adolescência. Via nele uma nova pessoa se desabrochando. Queria me conhecer melhor através dele, mas me deparava a cada dia com um ser desconhecido que se renovava a cada instante. Quanto maiores as mudanças, maior era a necessidade do espelho e maior ainda a incompreensão e a perplexidade de meus familiares:
_  Menina, sai da frente deste espelho ! Isso não é normal !
                     Tudo que eu queria era ser tão normal quanto as outras adolescentes, o espelho era o meu instrumento de comparação e avaliação. No entanto, o que eu sentia era um afastamento cada vez maior deste ideal de normalidade, a começar com a minha relação com o espelho, principalmente tendo o outro como tal. Olhava atentamente o corpo de minhas amigas. O meu corpo era rebelde, não seguia os mesmos critérios de desenvolvimento. Isso me fazia sentir complexada. Queria ser uma moça, mas meu corpo insistia em sustentar apenas a menina que existia dentro de mim. É como se esta menina não pudesse morrer nunca, deixando registros fortes para serem eternamente lembrados. A minha menstruação nunca chegava, os meus seios nunca cresciam. Um belo rapaz jamais desejaria uma menina. Complexos, timidez e muito silêncio... A menina esperava ansiosa a chegada da moça. Quanta espera ! Aprendí a esperar, mas neste momento com muita ansiedade.
                     Na frente do espelho feria o meu rosto tentando arrancar todos os cravos que as mudanças hormonais me ofereciam de presente. Sentia prazer em colocar para fora aquilo que estava contido. Talvez estivesse mesmo era espremendo esta moça contida. As minhas unhas encravadas representavam esta moça encravada dentro de mim. Ela precisava se soltar. As minhas seborréias denotavam as minhas insatisfações diante de tantas erupções emocionais. Conflitos de adolescente... Eis alguns:
Como poderia dar o meu primeiro beijo sem ser ainda uma moça ?
Menina não namora, pode ser pecado menina dar beijo na boca de verdade.
E se o rapaz descobrir que não sou uma moça ? Que tragédia !
Meus peitinhos michurucos  jamais agradariam aos rapazes. Ainda bem que moça direita não se deixa ser tocada nesta área .
Se eu usar colant a menina aparece. Como vou me adaptar a esta moda ?
O jeito é ficar caladinha para ninguém descobrir o meu segredo. Faça de conta que sou uma moça !
                     E foi assim que dei o meu primeiro beijo na boca; sem ser moça , mas fingindo sê-la. Com quase 15 anos acaba o fingimento, ganho de presente a minha primeira menstruação. E o meus peitinhos ? Jamais alcançaram o tamanho do meu desejo. A menina resistiu !





                     A minha primeira paixão não foi correspondida. Achava que era por culpa da menina. O garotão pelo qual me apaixonei não tinha olhos para mim. Como é que poderia enxergar uma menina magra e tímida que dificilmente se expressava ? O seu desejo era todo voltado para as minhas amigas com corpo e jeito de moça. Ieié era o seu apelido e Carlos Alberto o seu nome. Ieié era um garoto alegre, livre e para frente. Claudinha era uma menia alegre, porém presa em sí mesma e sentindo-se sempre para trás. Queria tanto ser desejada pelo Ieié, mas não tinha a astúcia e a maldade de minhas amigas. Elas sabiam falar palavrões e sabiam tudo sobre sexo. Sobre sexo eu fingia saber alguma coisa e falar palavrões nunca conseguí. Ficava atenta a tudo que falavam e acaba aprendendo no sopetão tendo que tirar as minhas próprias conclusões. Jamais perguntava nada a respeito para não parecer tola e ingênua demais. Lembro-me nitidamente do meu desconcertamento numa destas descobertas abruptas na área da sexualidade. Estava cursando já a 8ª série quando um grupo de colegas chegaram eufóricas anunciando a descoberta de uma camisinha numa das salas do colégio. Não entendí como uma camisinha pudesse causar tanta euforia e surpresa na cabeça daquelas adolescentes. Fui com as mesmas até o local da descoberta para checar o produto. Chegando lá não encontrei o que a minha ingenuidade imaginava e desapontada e confusa exclamei sem pensar : - O que é isso ?
Minhas amigas riram e perguntaram sarcasticamente: - Ah, você não sabe o que é isto ?
A euforia delas me cheirava sexualidade. Assim consertei a minha lamentável ignorância sexual denotando uma expressão de quem apenas não tinha verificado atentamente o produto, mas que na verdade possuia um bom conhecimento do mesmo : Oh ! É claro ! Não tinha reparado direito. É camisinha !
Aprendí neste dia que camisinha não é necessariamente uma camisa pequena e que provavelmente vestia algum orgão sexual
          Descobrí que precisava ficar mais esperta para ser desejada pelo Ieié. Percebia que aquele não era ainda o meu momento, mas desenvolví sem explicação uma certeza de que um dia ainda seria desejada e amada  por ele.
Quando desistí de tê-lo, olhei para ele e pensei enfaticamente : - Um dia serás apaixonado por mim e não desejarei tê-lo !
          Que desejo de puni-lo ! Talvez por desejar que fosse o meu primeiro namorado e que me desse romanticamente o meu primeiro beijo na boca. Mal sabia neste momento que mais tarde ele assumiria o 1 º lugar em muitas coisas em minha vida. Ieié neste momento jamais me desprezou, ele simplesmente não me enxergava, o que me fazia sentir-me insignificante. Lutaria para ser mais tarde uma mulher significante e desejada.

            A chegada de minha primeira menstruação coincide com o período em que me mudei novamente para Belo Horizonte para cursar o 2º grau. A mudança de cidade coincide com uma série de mudanças corporais e até mesmo de mentalidade.
            Volto para a cidade grande e volto a sentir-me novamente presa em uma gaiola apertada. Voltam todos os conflitos da infância. Não consigo interagir-me satisfatoriamente com outras colegas, apresentando dificuldades para fazer novas amizades. Os meus relacionamentos se restringiam a amizades superficiais em sala de aula. Todas as minhas amigas ficaram em Rio Casca, precisava fazer novas amizades e não conseguia. Não conseguia me identificar com as garotas da cidade grande. Elas eram tão diferentes... Me identificava mais com as colegas também vindas do interior. Saía pouco e estudava bastante.
            Encontrei pela primeira vez dificuldades nos estudos. Perdí três médias já no primeiro bimestre. Pela primeira vez Claudinha fracassou  nos estudos e deixou de ser a primeira da classe. O ensino público de Rio Casca era muito fraco me proporcionando pouca base para enfrentar um colégio particular. Os meus fracassos nos estudos ao invés de causar-me frustrações proporcionou relaxamento. Nunca mais me preocupei em ser a primeira. Me contentava com a média e me preocupava apenas em passar direto sem recuperações para poder gozar mais as minhas férias. Nunca tomei uma recuperação em minha vida podendo me deliciar com minhas longas férias. Agora eu poderia ser a média como a maioria, ser igual, não ser tão diferente.
            O meu sonho agora era sempre que possível ir para Rio Casca e aproveitar ao máximo cada minuto. Belo Horizonte representava meu compromisso com o dever e Rio Casca meu compromisso com o prazer.




























SEGUNDA INFÂNCIA


MENINA ...
TÍMIDA E DETERMINADA
FRÁGIL E FORTE


Chegara a hora da menina ir para a escola. A minha mãe sempre muito dedicada preparou impecavelmente o meu material escolar e o meu uniforme. Lá fui eu para o Grupo Afonso Pena com uma pequena pasta preta na mão, sapato preto devidamente engraxado, meia branca três quartos, uniforme azul marinho com saias preguiadas e o nome Cláudia Luiza bordado no peito.
Não me lembro como fui deixada naquela escola no meu primeiro dia de aula, mas lembro-me perfeitamente saindo de dentro dela ansiosa por encontrar a minha mãe no portão. Foi terrível ficar distante de minha querida mãezinha por quatro horas, não desejava voltar nunca mais naquele lugar. Meus olhinhos radiaram de alegria quando ví minha mãe chegando. Olhei em seus olhos e ví a luz do entusiasmo, da alegria e da satisfação em seus olhos. Sua expressão denotava uma expectativa positiva com relação ao desempenho de sua filha em seu primeiro dia de aula. Repleta de júbilo foi logo me perguntando: _ Gostou, filhinha ?
Não tive coragem de desapontar minha mãezinha. Apesar do meu total desapontamento deveria mostrar uma personalidade bem adaptada àquela situação nova e desprazerosa para mim, no entanto, importante demais para os meus pais. O meu superego superdesenvolvido  pronunciava o seu enfático discurso:
_ Serás sempre a filha perfeita, boazinha e bem adaptada !
A minha alma insatisfeita  se debatia e eu sentia no peito as dores de seu desconforto. Tímida e sempre em silêncio era vencida pelo superego ditador. Parecia não Ter forças para lutar com meu superego deixando-o prevalecer. Assim, acuada, abaixei o meu olhar para que minha mãe não enxergasse a minha verdade e respondí timidamente com um movimento afirmativo de cabeça.
_ Eu sabia que você iria gostar. Comentou alegremente a minha mãe. A mamãe sempre teve uma qualidade ou um defeito marcante; na verdade, qualidade e defeito dependendo do contexto – Mamãe sempre optou por enxergar apenas a felicidade. Assim, nem sempre conseguiu se deparar frente a frente com a tristeza dentro de mim.  A sua expectativa com relação a mim no meu primeiro dia de aula jamais a deixaria enxergar a minha verdade.- que eu havia detestado  a escola e estava tremendamente infeliz e assustada no  ambiente escolar. Aprendi neste momento que as expectativas matam o que o outro realmente é e sente. As expectativas da mamãe calavam os meus reais sentimentos fazendo de mim uma aluna exemplar para a época – a menina calada que jamais criaria confusão com a professora ou com qualquer coleguinha.
Meu superego continuou:
_ Seus pais saberão sempre o que deve ou não gostar. Para que seja amada, esta será sempre a sua verdade.
Perdí a garantia do meu amor, mas ganhei a garantia do amor de meus pais, e isto era tudo que eu queria naquele momento. Achei que acabaria por me acostumar e gostar da escola. Ia todos os dias com a esperança de me adaptar realmente àquele espaço restrito demais para os anseios de minha alma.
Achava linda a minha professora, ainda hoje guardo a memória olfativa de seu perfume. Tinha vários colegas mas não tinha coragem de me interagir com eles. Era a primeira da fila, a mais miúda, a mais calada. Teria que calar a minha alma para não correr riscos. Me determinei a expressar-me de outras formas. Ser a mais inteligente, a mais disciplinada, tirar boas notas era uma boa saída para quem se sentia tão acuada. Morria de medo de uma colega negra grandalhona que usava duas longas tranças. Ela me beliscava todos os dias. De tão calada que eu era, nunca tive coragem de denuncia-la. Ela se transformou num fantasma em minha vida. Talvez quisesse com estes beliscões me tirar da inércia em que me encontrava, talvez dissesse para mim o tempo todo: _ Acorde, Cláudia Luiza ! Porém, naquele tempo, não entendi a sua mensagem. Tive muita raiva e muito medo desta colega malvada, hoje lhe agradeço afetuosamente, pois foi sem saber o meu primeiro sinal de alerta. Ai! Como doíam aqueles beliscões fininhos... pareciam picada de formiga. Uma formiga só me tiçando e me picando não foi suficiente para me fazer gritar. Acho que eu precisava mesmo era do ataque de um formigueiro inteiro. Aprendi a suportar bem o ataque de formigas solitárias e a lidar bem com a dor de suas picadas. Hoje sei que esta resistência a dor nem sempre é boa. Para ser forte escondi a minha fragilidade. Fingi que ela não existia. Escondida dentro de mim, não soube encontrá-la em alguns momentos importantes de minha vida. Há momentos que precisamos  dela para descansarmos. De posse de nossa fragilidade encontramos colo, afago, proteção. Muitas das estagnações energéticas que tenho hoje criaram suas raízes neste solo duro que se forma quando  a fragilidade não pode entrar em cena.
Até para tomar injeções eu era uma boa menina. Não reclamava e não fazia nem mesmo cara feia. Virava o rostinho para o lado oferecendo meus raquíticos bracinhos para no final ouvir a mamãe dizer:
_ Essa menina é muito boazinha ! E ao mesmo tempo – Muito forte e valente esta menina. Não tem medo de injeções! E, como eu gostava de ser valente... Nesta época, eu não conhecia ainda meu lado ariano. Se eu o conhecesse, talvez eu tivesse esmagado aquela formiga.



No ano seguinte mudei de escola, fui estudar no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Era uma criança fora da “ faixa etária “, não possuía a idade regulamentada para iniciar o meu primeiro ano primário. Mais um desafio ! Provar a todos que não ficaria de fora, que estaria dentro dos padrões estabelecidos pela escola. Fui rejeitada por algumas escolas e aceita por esta. Deveria provar a minha eficiência. Tão pequena e já se cobrando provar tantas coisas. Não me lembro de nenhum colega, mas lembro-me perfeitamente da cara fechada da minha professora Maria Auxiliadora que não me auxiliou em quase nada. Descobri a solidão nesta escola. Talvez tenha sido este o meu maior aprendizado neste período. Nunca fui auxiliada por dona Auxiliadora a interagir-me com meus colegas e superar a minha timidez e a solidão que me devorava principalmente durante o recreio. Tinha o meu lugar reservado dentro da sala de aula e me sentia desapropriada tão logo batia o sino  como uma sirene de ambulância anunciando o recreio. Qual o meu lugar naquele pátio repleto de crianças. Procurei uma árvore bem frondosa. E lá, debaixo defronte de seu tronco robusto e debaixo de seus galhos  acolhedores, a menina Cláudia se isolava sentindo-se, de certa forma, mais protegida. Hoje, compreendo que inconscientemente eu buscava a segurança e o afago de  minha mãe representada simbolicamente por aquele linda árvore. A menina que brincava tanto em casa não conseguia se mover durante o recreio.
Mamãe me buscava todos os dias. Chegava sempre radiante de alegria e com muito interesse perguntava-me sobre o meu dia. Jamais tive coragem de dizer a ela que detestava aquela escola, que sofria e sentia-me aprisionada. Como de costume a minha alma sempre se silenciava diante dos berros do meu superego manipulador: _” Mostre  com boas notas o quanto você se adaptou, o quanto é inteligente, responsável e interessada por esta escola”.
Os meus boletins eram ótimos e mostravam o quanto eu estava dentro dos padrões exigidos e esperados por todos. Assim, tudo indicava que a vida corria bem. Soube enganar a todos e ainda mais a eu mesma. Naquela época a maioria das pessoas e a própria escola não sabiam fazer uma leitura do óbvio. Entendiam apenas o B, A, BA das notas. Educar era formar fantoches. Aliás, ainda hoje, as escolas se escondem atrás das notas, provas, boletins, pois avaliar um aluno através de uma  relação mais próxima com o mesmo dá muito trabalho. Conhecer verdadeiramente o aluno e aquilo que ele realmente sabe e ignora é bem mais difícil do que corrigir provas de múltipla escolha. Se comprometer a auxiliar o aprendiz a vencer as suas dificuldades é bem mais difícil do que impor ao mesmo que repita a série obrigando-o a rever coisas que ele não suporta. 
Passaram-se  28 anos e a educação mostrou ter pernas curtas. Ainda tropeça e machuca muita gente .Sonho com uma educação que ao invés de aprisionar, liberte muitas Claudinhas.




Em casa , brincava e demonstrava a minha força. Achava o máximo ser fisicamente mais forte que a minha irmã Ainda Mara. Através de brincadeiras, lutava, combatia e vencia a figura mais elogiada intelectualmente dentro da nossa casa. Ainda Mara era a representante do intelecto e Claudinha a representante da força e da esperteza. Nunca fui uma criança agressiva apesar de destruir simbolicamente com minha alma de guerreira a representante intelectual da família. Era reforçada pelo meu irmão Rômulo. Acho que ele elaborava através de mim, conflitos semelhantes em relação ao José Márcio, o geninho da família.
As guerras aconteciam apenas no espaço lúdico permitindo que a rotina familiar fosse sempre caracterizada por muita harmonia, afetuosidade e paz. Depois da guerra ludica, a docilidade e a doçura tomavam conta de mim. Brincando o meu id se expressava e o meu ego se fortalecia.
Talvez tenha tomado nesta época as primeiras lições sobre a importância do brincar na vida de todo ser humano.


***

Repentinamente descubro em meu corpo um novo prazer. Não me lembro quando e como o sentí pela primeira vez, sei apenas que jamais abrí mão dele apesar das censuras. Descobrí o orgasmo nesta fase da minha infância e me permitia tê-lo com muita frequência. Me masturbava e me deliciava com as sensações prazerosas deste ato. Comecei a ser censurada por minha família. Diziam que eu estava “ apertando perereca “. Comecei a viver a recriminação e a proibição. A descoberta da minha sexualidade passa a  ser encarada como uma experiência pecaminosa. Não conseguia parar de pecar e descobrí o sentimento de culpa. Me sentia diferente e anormal, com isso a ansiedade crescia e de mais prazer eu carecia. Tentava esconder de todos o meu pecado, só não conseguia esconder de  eu mesma. Optei por ele até descobrir já na universidade que ele nunca existiu. Teria sido poupada se tivesse feito esta descoberta mais cedo. Fui determinada quando optei por queimar no inferno a Ter que apagar a chama do prazer que descobrí dentro de mim. Ainda bem que descobrí a tempo que o inferno só existia na cabeça daqueles que mutilaram a sua sexualidade. Quantas mulheres foram mutiladas no momento desta descoberta  criando uma imagem assexuada de sí mesma. Uma mulher impotente jamais será uma ameaça para os machões que só conseguem se afirmar enquanto macho diante de um ser que amputou a força feminina capaz de desnudar o verdadeiro homem.


***



Apesar de Ter nascido na capital sempre tive uma alma matuta. Viví até meus 7 anos em Belo Horizonte fazendo piquenique debaixo do prédio da esquina e subindo e descendo do elevador do prédio ao lado. Brincava muito, mas o meu limite era sempre quatro paredes. Não sabia o que era fazer piquenique no campo e subir e descer de árvores. Além da minha irmã Aida Mara, tinha uma única amiga chamada Sibele. Éramos inseparáveis, no entanto, o destino nos separou e não nos uniu mais quando me mudei para Rio Casca, uma pequena cidade do interior de Minas. Com esta mudança, meu pai iniciava uma nova vida profissional com novas perspectivas e eu nascia novamente. Minha alma passou a encontrar um novo espaço para expressar livremente o seu lado matuto. Vivia um espaço apertado na cidade grande e agora a pequena cidade do interior me presenteava com um amplo espaço. Que paradoxo! Comecei a entender aí as contradições. Nem tudo que é grande é espaçoso.
Fui morar num casarão antigo completamente diferente da minha morada anterior. Agora eu morava numa casa com piso de tábua corrida encerado bem diferente dos tacos sintecados do apartamento. O corredor era comprido, os portais altos e bons para escalar, o teto forrado em madeira se diferenciava muito da laje de concreto e o terreiro com quintal e fogão à lenha  era exclusivamente nosso, sem as costumeiras regras de condomínio que limitavam tanto a nossa vida lúdica. Sair de um apartamento para vir morar num espaçoso casarão era como ser transferida de uma gaiola apertada para  um amplo viveiro de portas abertas. Sentia cada espaço da nova casa como se fosse uma conquista de território novo. Comecei a exercitar com prazer no fogão à lenha a arte da culinária que por força do destino ficou  na lembrança apenas como agradável brincadeira de criança. Como obrigação de adulto jamais foi exercitada com prazer. Nadar nas extensas caixas d’agua, esconder dentro dos armários que não eram embutidos na parede, escalar os portais de madira, brincar de bola no extenso corredor da casa, fugir amedrontada dos morcegos que  escapavam através dos enfeites vazados do forro de madeira eram novidades que deixaram agradáveis lembranças. Ficou o cheiro do lodo das caixas d’agua e do armazém abaixo do nosso casarão, o medo de morcegos e muitas outras lembranças significativas. Hoje, lodo tem cheiro de infância e o medo de  morcego ao invés de gerar pavor me diverte.
Tive a oportunidade de  criar muitos animais. Pombas, passarinhos, galinhas e galos foram os meus primeiros animais domésticos. Os  gatos eram os meus animais prediletos, aprendí com eles o sentido de coisas fundamentais nesta vida. A minha primeira gata, a Teteia era na verdade um gato. Não sei se esse erro em sua identidade sexual trouxe danos à sua sexualidade, mas aprendí com este engano a diferenciar um macho de uma fêmea. Com o decorrer  alguns enganos viria me possibilitar diferenciar um macho de um homem e uma fêmea de uma mulher. Teteia possuia uma docilidade incomum para gatos machos, talvez tenha desenvolvido mais o seu lado feminino por ter sido criado como se fosse uma fêmea. Isto me faz pensar que muitos machões precisam de um toque feminino para se tornarem homens sensíveis, menos agressivos e ariscos; homens que não temam o amor e a entrega.
Com Teteia aprendí o significado da fé. Num certo dia Teteia foi roubada, nem os policiais conseguiram dar fé de minha querida gatinha. Traumatizada diante de minha primeira perda significativa e certa de que os adultos não teriam disponibilidade para resolver o meu problema, desenvolví naturalmente dentro de mim  a fé inabalável de que teria a minha gata de volta. Com a companhia de uma amiga chamada Maria Teresa resolví intuitivamente procurar a minha gata num bairro mais distante e pobre da cidade. Sem que minha mãe soubesse, durante à noite rodadva por rua escuras, estreitas e  às vezes desertas perguntando de casa em casa se haviam visto uma gata preta e branca com uma pintinha no nariz. Ninguém acreditava que eu pudesse encontar a minha gata, só eu e Maria Teresa. Na terceira noite , repentinamente, ela passou correndo entrando dentro de uma casa situada em uma das escuras ruas deste bairro. Corrí até a casa e fiz novamente a mesma pergunta já repetida dezenas de vezes certa de que agora eu teria a resposta tão esperada. Os moradores desta casa atenciosamente me levaram até a cozinha para que eu pudesse verificar se o novo animal que aparecera por alí era a gata que procurava. Corrí para a cozinha certa de reconhecê-la e gritei entusiasticamente: -Tetéia !
Tetéia também me reconheceu cumprimentando-me com um gracioso miado. Peguei minha gata que na verdade era um gato, cruzei a cidade com ela em meu colo e já na praça onde brincavam, minha irmã Ainda Mara e algumas colegas gritei euforicamente: _ Achei a Tetéia !
Nem as crianças e nem os adultos acreditavam no que viram. Descobrí neste momento que bastava apenas a minha fé para que eu pudesse ir atrás e encontrar tudo que desejasse nesta vida. Sempre ouví dizer que a fé move montanhas, mas descobrí que ela move algo muito maior , ela nos move. Sem ela nos transformamos em um ser estático, árido em esperança  e impotente para transformar. Com Tetéia nos braços não transformei o mundo, mas transformei naquele momento a minha tristeza em alegria.
Se o ser humano se prontificasse a transformar pelo menos seus sentimentos teríamos um mundo com certeza bem melhor.
Minha mãe abismada com o ocorrido descobrira naquele momento por onde andara sua filha por três noites consecutivas. Tive que omitir minhas andanças para que os adultos não enfraquecessem a minha fé e a minha disposição mostrando-me os perigos e as fantasias ameaçadoras que rondam suas cabeças. A negatividade do outro é sempre um impecilho para nossas conquistas se deixarmos nos abater por elas.
Logo depois de Teteia tive uma outra gata ainda mais amada chamada Mimosa. Era uma gata preta, mestiça angorá. Com Mimosa pude perceber que os animais vivenciam e expressam sentimentos profundos. Percebí tudo isto através de seu olhar. No seu primeiro parto Mimosa chorou de emoção e preocupação solicitando que eu ficasse a seu lado cantando. E, cantando, eu presenciei todos os seus partos e nascimento de seus filhotes. Mimosa foi a minha primeira professora de educação sexual. Aprendí com ela sobre a concepção, gestação, parto e amamentação. Os animais nos falam sem constrangimento de muitos assuntos tabus em nossa sociedade, vale a pena fazer um curso com eles.
Mimosa além de minha  educadora era também a minha protetora. Dormia em minha cama e jamais permitia que qualquer perigo me ameaçasse. Diante do perigo sua doçura se transformava em instinto selvagem.
Nunca presenciei a morte dos animais que amei profundamente. Teteia foi dada como desaparecida e Mimosa levada para longe de mim depois de velha antes que a morte nos separasse. Meu pai a levou para um restaurante de seu posto de gasolina onde teria comida com fartura mas carência de afeto. Apesar de poder vê-la quando quizesse sofrí uma crise depressiva significativa. Na ocasião não sabia o que viria a ser uma depressão, mas sentí perfeitamente o presságio dela. Subia no pé de abacate da nossa casa nova e calada pensava na  minha primeira perda e nos sentimentos que a minha velha gatinha estaria vivenciando. O meu pensamento de criança atribuia aos sentimentos de Mimosa a mesma intensidade e significado que os meus. Sentindo-me culpada por Ter permitido este abandono e sem forças para enfrentar o seu olhar, afastei-me definitivamente do meu  amor. Não lutei para tê-la comigo e sofrí profundamente com isso. Prometí  a mim que pelo resto de minha vida jamais omitiria o meu amor. Lutaria por ele mesmo que tivesse que enfrentar ou magoar as pessoas mais queridas de minha vida.
Nesta época mudamos para nossa casa nova  construída exclusivamente para atender as necessidades da nossa família. Apesar de Ter amado profundamente esta casa, ela jamais teve a magia do meu primeiro casarão.


***********



A minha vida escolar mudou consideravelmente. Possuia  vários colegas e me interagia bem com todos eles. A escola era bem familiar, chegava a lanchar em casa sempre que desejasse. Nunca conseguí deixar de ser a aluna disciplinada, responsável e aplicada. Jamais daria motivos para ser chamada a atenção ou colocada de castigos. No entanto, por mais que a gente evite a vida sempre nos oferece situações traumáticas para que possamos aprender um pouco mais com elas. Os traumas ao invés de bloqueios deveriam se transformar sempre em aprendizados positivos para o nosso desenvolvimento pessoal. Na 4ª série primária pude vivenciar mais um trauma que ao invés de bloquear-me ensinou-me muitas coisas. Existem professores que só conseguem educar traumatizando seu aluno. Nestes casos é fundamental que o aprendiz tenha a capacidade de discernir e enxergar a educação pelo avesso, ou seja, aprender sobre tudo que não se deve aprender. Foi o que aconteceu comigo. A minha professora de 4ª série me ensinou tudo o que não se deve aprender com sua prática educacional caduca e preconceituosa. Pela primeira vez tive uma professora que não gostava de mim apesar de nunca Ter lhe dado motivos para isto. Talvez eu tenha sido um instrumento de projeção de todas as suas insatisfações. Aprendí com esta professora que  não precisamos fazer nada para sermos rejeitados ou odiados, basta apenas que o outro seja uma pessoa mal resolvida e carregado de ressentimentos, insatisfações e todos os tipos de sentimentos negativos. Passei a ser  um espelho para a alma daquela pseudo educadora ressentida com a vida. O seu primeiro golpe sobre mim foi colocar-me de castigo durante o recreio sem merenda durante três dias exposta a todos de forma humilhante no corredor da escola. O motivo alegado foi a minha não participação em uma atividade catequista que em nada tinha haver com o currículo escolar. Somatizei a humilhação que sentí com uma forte dor de cabeça que não se repetiu nos próximos dois dias que faltavam do castigo. Pela primeira vez meu pai foi à escola tirar satisfações e defender-me das tiranias de um educador déspota. Sentí-me protegida e satisfeita com essa atitude paterna que só fez aumentar o ódio  da minha professora e a preparação de um terreno fértil para a próxima vingança. Passado pouco tempo, chegara a hora da escola revistar a cabeça de todas as crianças com o intuito de eliminar os piolhos. Ao invés de eliminar piolhos acabavam em muitos casos eliminando a auto-estima de muitas crianças. Eu tive o azar de ser uma das escolhidas. Toda criança que tivesse piolho pagaria por seu crime uma pena calcada na humilhação de ser expulsa por três dias até eliminar todos os seus parasitas. Para não correr este risco, minha cabeça foi cuidadosamente revistada por várias pessoas de minha casa. Cuidei de meus cabelos como se estivesse indo para uma festa e tranquilamente partí para a escola. Estava segura e despreocupada, no entanto, ao ser revistada pela professora minha tranquilidade se transformou em desespero. Com seus olhos cheios de maldade conseguiu enxergar uma infinidade de lêndias em meus cabelos. Com uma mistura de ódio e sarcasmo mandou que eu me retirasse e retornasse à escola apenas quando eu eliminasse todos os meus piolhos. Saí da sala de aula cabisbaixa sem coragem de olhar nos olhos de meus colegas. Humilhada partí para a casa cheia de revolta em meu coração, chorando e acusando a minha mãe pela suposta negligência para comigo.
Indignada e confusa revistou novamente a minha cabeça e partiu imediatamente para a escola furiosa como uma leoa a defender sua cria. Nunca havia visto anteriormente o lado fera da minha mãe sempre dócil e tranquila. Lembro-me de suas palavras firmes dirigidas a todos os educadores da escola:_- Quero que todos catem piolho na cabeça da minha filha. Se acharem uma lêndia ou piolho que seja, eu cômo ele !
Diante desta cena, percebí que o nosso lado fera deve sempre se manifestar em ambientes selvagens para que não sejamos devorados pelo ódio e pelo despotismo alheio. Naquele momento uma falsa educadora estava sendo desmascarada e eu separada de meus colegas que me acompanharam desde a 2ª série. Jamais tornei-me novamente vítima daquela professora e espero que ela não tenha eleito outras. Continuei na mesma escola, mas mudei de turno. Passei a  Ter novos colegas e uma nova professora com a qual me identifiquei muito. O seu nome era Luísa, assim como parte do meu. Depois de tanta guerra a paz estava de volta. Nesta guerra aprendí muito mais a ser defendida do que lutar propriamente. Este aprendizado talvez pudesse mais tarde me auxiliar no exercício de defesa em prol dos mais fracos.

            O tempo passava e eu me sentia cada vez mais livre. A pacata Rio Casca  me tornava uma criança cada vez mais ativa e energética. Explorava sem medo cada espaço da minha pequena cidade. Para mim ela era muito grande, bem maior do que a grande Belo Horizonte que limitara tanto a minha vida de criança.
            Os meus piqueniques já não eram mais realizados debaixo de escadas sombrias. Agora eu tinha a natureza e o sol. Já não era mais necessário subir e descer  de elevador, podia descer e subir com minhas próprias pernas lindas montanhas. Não era mais necessário fantasiar os perigos, eles se apresentavam de frente mesmo sem a minha autorização. Aprendí a fugir e enfrentar boiadas, cobras e muitos outros estimulantes perigos. Me saía muito bem deles e fui gradativamente aprendendo a ser uma pessoa cada vez mais corajosa. Comecei a achar estimulante desafiar o medo e sair vitoriosa, fazendo crescer cada vez mais a fé na guerreira que residia dentro de mim
            Brincar era a minha principal atividade. As brincadeiras deveriam ser desafiadoras e movimentadas. O movimento passou a ser uma característica de minha alma e à partir daí nunca mais parei. Estar em movimento me permitia sentir mais a vida, pois viver é estar em movimento.
Quem está parado está de certa forma meio morto.  Gostava de lutar e aprendí a lutar para vencer. Gostava de esportes e aprendí a competir, a perder e ganhar. Gostava da natureza e aprendí com ela a Ter naturalidade. Gostava de andar de bicicleta e aprendí a Ter mais equilíbrio. Gostava de meus amigos e amigas e aprendí a me relacionar. Enfim, gostava de tudo que amo hoje. Gostando de gostar tanto, aprendí a amar.
            Com tantos aprendizados, só não aprendí a lidar com a morte. Eis a única coisa que eu realmente temia. Morria de medo de perder minha mãe, meu pai ou qualquer outra pessoa que amasse muito. Nem pensava em minha morte de tanto medo que tinha da morte daqueles que amava. Rezava para evitar isto, mas a minha reza era muito mais uma obrigação e uma barganha do que propriamente uma relação com Deus. Nesta época me ensinaram sobre Deus ao invés de buscar aprender diretamente com ele os seus ensinamentos. Aprendí a temer a Deus sobre todas as coisas. Deus era a morte, jamais a vida. Deus era uma obrigação, jamais o prazer. Depois dos ditos ensinamentos religiosos deveria passar a percebê-lo como um homem autoritário, manipulador, ditador e proprietário de todas as coisas. Antes disto ele era naturalmente uma presença viva, forte e acolhedora em minha vida. Agora existia um Deus demoníaco pronto para julgar-me e punir-me. Temia que seu castigo predileto pudesse ser a morte. Não conseguia gostar deste Deus sentindo-me culpada e temerosa de tornar-me a sua próxima vítima. Aguadei por muitos anos o seu castigo, no entanto, jamais fui castigada por ele.. E, foi assim que fui descobrindo que o Deus dos livros e da cabeça das catequistas era bem diferente do Deus que habitava o meu coração. “Deus de infinita beleza e poder “. Meu coração deveria crescer infinitamente para acolhe-lo dentro de mim tamanha sua grandeza.





            E as minhas férias ?  Passava em ponte Nova na casa do vovô Teófilo e tias paternas. Lá deveria prevalecer a obediência  e as boas maneiras. A lei era a “lei”. No entanto, férias combinava mesmo era com o nome mais especial da minha infância: “ZICA”. Vovó Luiza ? Não, vovó Zica ! Herdei o Luiza e restou o Zica.
Zica, o sonho de todo neto
Zica, o sim
Zica, a doação
Zica, a alegria
Zica, o pode tudo
Zica, a fartura
Zica, a espontaneidade
Zica, o amor
Zica, a alimentação
Zica, a expressão
Zica, a aventura
Zica, o movimento
Zica, a criatividade
Zica, a brincadeira
Zica, o natal com Papai noel
Zica, a artiosidade
Zica, a infância que toda criança deseja e precisa
Zica, vovó Zica, lição simples e profunda
            Com vovó Zica a lei era o prazer. Deixou saudades e muitas lembranças agradáveis. A minha infância termina aqui. Vovó Zica partiu e com ela a minha meninice. Talvez tenha ido para um mundo mais parecido com ela. Talvez esteja preparando crianças pois este nosso mundo precisa muito delas.
            “Vovó Zica, a minha infãncia se foi, mas a criança continua viva aqui dentro de mim. Me orgulho de Ter sido a neta mais parecida com você. Quando criança me desagradava pensar ser parecida com uma pessoa velha. Coisas de criança ! Hoje me agrada profundamente parecer com um ser tão jovem. Você não envelheceu por causa da criança. Te tenho muito viva. A morte não existiu, apenas um momento de descanso para a próxima brincadeira. Haveremos de brincar muito ainda. Eternamente...”
            Chorei muito quando vovó Zica se foi levando a minha infância. Não quis participar ativamente do funeral, neguei com isto enterrar a minha criança. Assim , ela continua brincando aqui dentro de mim.
          Ubá jamais seria a mesma cidade sem a vovó Zica. Ficou o vovô Tote, meus queridos primos e a engraçada Tia Maria Luiza. No entanto, tudo mudou com o adeus da vovò que marcou para sempre a nossa vida . Percebí com isto que quando um grande amor se vai muda-se definitivamente o capítulo de nossa história.



         










































NASCIMENTO E PRIMEIRA INFÂNCIA

CRIANÇA...
CALMA E ATIVA
BIRRENTA E  MEIGA


          De repente sou jogada num mundo totalmente desconhecido sem saber porque e para que. Aliás, não sei se existe realmente algum motivo para estarmos aqui. Sinto que sim, mas não tenho como comprovar esta verdade, mesmo que ela seja só minha e confirmada em cada vivência que me é oferecida pela Deusa Vida. Creio que descobrirei as respostas para as minhas indagações através de uma vida intensamente vivida e sentida. Aliás, nossa devoção à Deusa Vida nos faz mais divinos e torna a nossa vida mais divina também. Cercada de dúvidas e certezas que divindade me oferece, vivo e sigo.  Para isto, foi necessário que eu nascesse. Quando nascemos, nossos guias nos oferecem um livro em branco e uma caneta para que possamos escrever a nossa  história, ou nos oferecem um livro com uma história já concluída para que possamos nos limitar a dramatiza-la ? Eis a questão.
          Depois de muitos anos de vida, percebo que poderia ter feito tudo diferente. Mas, fiz exatamente da forma como dei conta de fazer. Se foi a melhor ou a pior opção, não importa mais; importa apenas que foi a opção que escolhi. Mesmo cercada por algumas limitações, pressões e obstáculos, sinto que me foi dado o livre arbítrio. Tive a opção de escolher caminhos diferentes,  no entanto, estou aqui agora trilhando este caminho onde estou. Isto me faz pensar que somos todos autores de alguma obra. Acredito que Deus jamais escreve a nossa história, se limita no máximo a nos mostrar nossos erros de  ortografia. O mundo é como se fosse uma vasta biblioteca com uma infinidades de bibliografias e biografias. 
             Assumi o desafio de escrever o meu próprio livro, não aceito a  simples tarefa de fazer cópias. Tenho criatividade suficiente para compor uma história emocionante. Assim, de posse do meu livro em branco e da minha caneta  eu começo aqui a minha história.


                 Nasci. Não lembro do meu nascimento e nem mesmo de minha vida intra uterina. Extra útero, a minha mãe esteve envolvida com uma vida repleta de afazeres domésticos e com 3 filhos para cuidar e meu pai  bem envolvido com o trabalho gestando a vida financeira da família. Provavelmente, ambos sem muito tempo para conectarem comigo antes de eu "dar a minha cara". Naquela época não era comum um envolvimento profundo dos pais com os filhos durante a gravidez. Gravidez era muito  mais um estado fisiológico do que qualquer outra coisa. Se fazia bem ou não para o bebê ser tratado como um mero produto fisiológico, isso era coisa que ninguém se questionava na época. Eu, a quarta filha e a última nos planos iniciais do casal provavelmente me sentia aconchegante no útero de minha mãe, pois ainda hoje me sinto profundamente acolhida, tranquila e  em êxtase na posição fetal. Meus registros deste momento se manifestam de forma inconsciente através de uma linguagem muito mais corporal e cinestésica. Por outro lado, meus registros formais alegam que o meu nascimento ocorreu no dia 21/05/1966 às 2:15 horas no hospital Vera Cruz da cidade de Belo Horizonte. Mais uma mineira  uai ! E, mais uma taurina que pensou anos a fio ser uma geminiana. Será que quando pensamos ser o que não somos, deixamos de ser, de fato, aquilo que somos? Isto vocês verão ao longo de minha história.
                Minha mãe cheia de pudor preferiu ser sedada. Ela não fez por mal, mas pelo excesso de constrangimento, vergonha e retraimento, fruto da suposta retidão e decência implantada em seu ser formatado pelo machismo da época.  Por ignorância, não tinha disponível, naquele momento, a  consciência de que seu olhar e seu calor além de ser muito importante, seriam uma grande referência não só para a minha chegada a este mundo, como também para a minha própria vida.  Assim, chego ao mundo privada de seu olhar, de seu som, de seu cheiro e de seu calor. Da penumbra do útero quentinho e acolhedor sou levada para uma sala fria e com luzes fortes onde, mesmo depois de mais de 50 anos, grande parte dos bebês ainda continuam chegando ao nosso mundo. Com certeza, nenhum bebê é capaz de se sentir protegido e contido num ambiente frio. Mas, grande parte da comunidade médica ainda resiste em admitir o obvio. E, como o poder de decisão ainda está com eles, os partos ainda acontecem em ambiente médico porém  pouco humanizado e propício à saúde emocional tanto da mãe quanto do bebê. Estudos revelam os benefícios para ambos quando o parto é realizado   num ambiente aquecido, seguro e com pouca luminosidade.  O hormônio da ocitocina que promove as contrações uterinas e que atua também  no mecanismo de estimulação e produção do leite pode ser inibido num ambiente pouco acolhedor. Não é a tecnologia que favorece um parto normal, mas uma entrega à nossa condição mais primitiva e instintiva.  Não é a toa que os animais procuram um local escuro, reservado e acolhedor para parir e não a exposição direta à luz solar ou lugares excessivamente frios. As mulheres destituídas de seu saber como parturientes e como parteiras deram aos homens o poder de parir, visto que grande parte dos médicos no passado eram homens e as ditas parteiras estão sendo substituídas por um bisturi. . Nós, mulheres, precisamos nos apropriar novamente deste saber e ofertar aos nossos filhos uma chegada acolhedora a este mundo. Sem tirar da medicina o seu mérito, só agravos no parto  deveriam ser de sua competência. 
                Como detesto salas frias! Talvez, reflexo desta minha primeira experiência cinestésica. Minha mãe, logo após ter me parido,  diz ter sentido um frio terrível.  Nenhuma coberta era capaz de aquecê-la. Minha avó tentava aquece-la com todos os cobertores disponíveis, mas o frio que a dominava parecia não poder ser saciado. O que ela precisava mesmo era do calor e do afago da filha que acabara de trazer ao mundo. Sob efeito da anestesia e sem lembrança alguma do parto, perdeu a capacidade de sentir o calor que ela e eu precisávamos tanto naquele momento. Perdemos muito mais do que o nosso calor naquele momento. Perdemos a conexão com a significação daquele momento único  e a oportunidade de cada uma sentir a presença acolhedora da outra; uma presença que nos presenteia com riquíssimas sensações capazes de curar qualquer dor e temor. O cheiro, o som, a visão, a energia, enfim, sensações inomináveis que ultrapassam os nossos sentidos ofertam a este momento uma magia que transforma qualquer dor em prazer. Ao invés da presença, vivemos o abandono.  Imagine a sensação de perda e de pavor que este primeiro abandono provoca na psique de uma criança e de uma mãe. Não foi a toa que mamãe produziu pouco leite e que seus seios tiveram em pouco tempo serem substituídos pela mamadeira. Vivi naquele momento uma consciência fragmentada disto tudo. Esta consciência só se  consolidou e ampliou através de meu processo de vida. Foi  necessário viver boas e gratificantes experiencias com a minha mãe  para que eu pudesse lentamente me unificar novamente. Fica aí, um alerta para as futuras mamães! Vocês podem facilitar bem a chegada de seus filhos. Não os entregue aos médicos, mas ao seu ventre. Faça-os sentir a sua voz, o seu calor, a sua energia, o seu cheiro, enfim, toda a segurança e todo amor que você tem para oferecer. Não deixe que as anestesias anestesiem a sua capacidade de sentir e de doar ao seu filho o que ele precisa sentir. Com certeza, além de amenizar o trauma do nascimento, você estará ofertando a consciência de que a vida pode ser tranquila e prazerosa. A primeira consciência acerca da vida determina muito o nosso posicionamento frente a ela. Tem um sábio ditado que diz: “A primeira impressão é a que fica”. Mudar uma impressão ruim não e impossível, mas, com certeza, pode dar um pouquinho mais de trabalho.
            Todos os registros de meu nascimento ficaram  encrostados no meu corpo se manifestando constantemente  através de inúmeras condutas, dificuldades e necessidades atuais. Um exemplo típico é a minha posição ao dormir bem parecida com a de um feto. Sinto-me contida, protegida e tranquila ao enroscar-me e ser tocada pelo calor de uma coberta, do sol ou do afago pronunciado pelo amor numa relação a dois. Sempre dormi bem, talvez por saber buscar sempre a posição certa. E, haja calor para esquentar as minhas mãos e pés frios. De acordo com a Medicina Tradicional Chinesa sofro de deficiências energéticas que me fazem sentir mais frio. Será que tudo não começou ai? Adoro água bem quente e, como já disse: Detesto salas frias! Preciso de janelas, do sol e do ar puro habitando os locais onde estou. Não suporto ambientes semelhantes a salas de parto. Todo ambiente que crio ou escolho para viver fogem totalmente desta concepção fria.
          Com o meu nascimento, começa o meu relacionamento com a minha primeira referência: minha afetuosa mãe. Agora tínhamos um novo mundo que não se limitava apenas a nós duas. Ela teria que me ensinar a enfrenta-lo.  Minha mãe sempre foi muito amorosa. Soube compensar durante toda a minha vida com amor, carinho e proteção o sentimento de abandono que senti nas minhas primeiras horas de vida. A sua visão positiva e o seu otimismo exagerado frente a vida, próprio de uma boa sagitariana,  com certeza, compensou o meu primeiro temor frente a vida ou do que estaria por vir.
           Chegara a hora dos meus pais começarem a fazer uma série de escolhas para mim, algumas por mim aprovadas futuramente e outras não. A primeira feita em cartório foi a do meu nome. Resolveram por bem registrar-me como Cláudia Luiza  Alves Couto. Gostavam do nome Cláudia  em moda na época;  Luiza por ser o nome da minha avó materna;  Alves o sobrenome da minha família materna e Couto o sobrenome da minha família paterna. Recebi um nome que determinou de alguma forma a minha história e a minha forma de ser. SER Cláudia Luiza! Cláudia manca e Luiza guerreira: uma Manca Guerreira. Pode parecer estranho uma guerreira manca, mas dentro de meu enredo histórico faz todo sentido. 
               A segunda escolha aconteceu no dia do meu batismo. “Serás católica e seguirá os princípios desta Igreja”. Me tornei neste momento uma criança católica sem saber o que era ser católica, como usualmente acontece com muitas pessoas; se tornam algo por imposição sem saberem o que aquilo representa. Mais tarde eu haveria de saber o que representaria ser uma pessoa católica.
A terceira escolha foi o meu apelido. A menina pequena deveria carinhosamente ser chamada de Claudinha. Sempre me identifiquei com este apelido, muito mais do que com o meu próprio nome. Nasce neste momento a Claudinha que jamais morreu. Talvez Claudinha tenha eternizado a criança dentro de mim.
Muitas outras escolhas vieram, cada qual no seu momento certo.” Serás uma menina calma, meiga, alegre, educada, obediente, inteligente, responsável, pura, enfim, um exemplo de virtudes para todos.” Será que eu encarnava realmente todas estas qualidades ou passei a ser assim à partir do momento que me revestiram destes adjetivos ? Somos por natureza ou passamos a ser ?
Nunca ouvi meus pais dizerem que eu era nervosa, triste, agressiva, mal humorada, irresponsável. Seria possível eu me tornar algo que nunca ouvi ser ?
Apesar de meu pai sempre ter sido uma pessoa maravilhosa, o excesso de trabalho e o seu jeito teimoso, sistemático e dominador, às vezes, o deixava nervoso e mal humorado. Mas, minha convivência maior era com uma mãe sempre feliz, otimista, calma e bem humorada. Em que daria esta mistura? Os limites do lado do papai e os prazeres do lado da mamãe. Além das interferências que recebi nesta a vida, com certeza acrescentaria as interferências de muitas outras. No final, será possível detectar o resultado desta miscigenação? O fato é que esta criança soube escutar todos os seus desígnios, só não sabia se daria conta de vivencia-los plenamente. Presentear os pais com as virtudes que eles valorizavam era o seu principal objetivo. A sua personalidade seguia rigorosamente as referências virtuosas ditadas pela família, mas a sua alma por vezes sentia-se aprisionada e se manifestava impetuosamente com algumas birras e com posturas bem ativas. E assim restou a lembrança de uma criança boazinha e danada ao mesmo tempo. Qual lado prevaleceria mais tarde ?
Até este momento eu era a caçulinha dentre 3 irmãos. Tinha uma irmã acima de mim, a Aída Mara, seguida de outros dois irmãos, o Rômulo e o José Márcio. Morávamos na capital de Minas, Belo Horizonte, num apartamento sempre povoado por inúmeras visitas. Meus pais sempre foram excelentes anfitriões. Mesmo com a casa cheia de filhos, não faltava um lugar a mais para os que precisavam ir a Belo Horizonte cuidar da saúde, estudar, passear, enfim, cuidar dos mais variados assuntos pessoias e profissionais. Num apartamento de 3 quartos, havia espaço para meus pais, 4 filhos, uma tia, algum primo ou sobrinho estudante e uma variedade de visitas.
Claudinha precisava crescer. Minha mãe se preocupava exageradamente com minha saúde física e com minha alimentação.
_ Não fique descalça, não beba gelado, não tome sereno, fuja do vento, coma tudo, não pegue friagem, enquanto não comer tudo não sai da mesa ...
Proteger-me era o mais importante. Esta proteção me acabou transformando numa casca de ovo. A casca só não quebrava por ser muito bem protegida pela galinha dos ovos de ouro.
Papai, sempre trabalhando, conseguia tirar aos domingos algumas horas para passear com todos os filhos no centro da cidade, ou Pampulha, jardim zoológico. Previsíveis os npssos passeios... Aliás, na vida do papai tudo era previsível e planejável. A vida do papai e da mamãe era garantir o nosso futuro, cada um deles a  seu modo.
A personalidade de Claudinha se fixava em seus pais e sua alma no infinito. Tudo muito complicado para uma criança entender. Lembro daquela criança sentindo sem saber racionalizar como os adultos. Lutaria para se tornar um dia uma adulto maduro  e  conquistar a lógica da razão. Talvez a razão fosse a chave de todo o entendimento. Criança acha que o adulto sabe coisas que ela não sabe, mas , na verdade, são eles que sabem coisas que os adultos não ousam imaginar. Os adultos sempre deletam de seu imaginário a lógica daquilo que a sua tão valiosa razão não dá conta de explicar.
Restaram desta fase lembranças sensoriais fantásticas como o balanço do ninar de meu pai acompanhado de uma melodia suave que saía de seus lábios chiando ritmicamente: _ xih... xih... xih...O papai bravo era também tão manso e carinhoso... Apesar de ficar com medo  de suas iras descontroladas, sempre me senti protegida  e afagada ao lado dele.
Ficou o cheiro das pessoas que eu amava e dos locais que amei, a aparência da comida servida no dia do nascimento da minha irmã mais nova.
Derepente minha mãe  vai para o hospital e meu irmão à Mercí, um grande supermercado da época,  comprar uma banheirinha. O que tudo aquilo representaria ? Representou repentinamente a chegada de mais uma criança na minha casa, assim como a infinidade de visitas que chegava sempre em nossa casa. Não me lembro de ter sido preparada para a chegada de mais uma irmãzinha. Talvez, a mamãe tivesse muita vergonha de falar de sua gravidez. Como ela explicaria a origem daquela criança em seu ventre? Com certeza, a minha curiosidade infantil faria a tão famosa pergunta: Como é que o neném foi parar aí? Acho que a mamãe ficaria corada de vergonha e sem respostas. Ela já era proprietária de uma história de vida cheia de tabus sexuais. Será que eu teria também os meus? Será que eu teria, também,  facilidade de relatar, no futuro, a minha gravidez aos meus pais?
A minha irmãzinha chegou como mais uma visita em nossa casa. Vejo-me  e  à  minha irmã mais velha  debruçada em seu berço a contemplar seu rostinho. Oferecí a ela uma de minhas bonecas como presente. Que significado aquela criança teria em minha vida ? Dentre alguns nomes, Maria Beatriz, Luciana e Luciane; o último prevaleceu. Luciane era agora a caçula da casa. Não me lembro de ter temido a sua chegada, sei apenas o que fiz anos a fio para jamais deixar de ser uma filha amada e desejada. Será que aconteceu o mesmo com minha irmã Aida Mara ?
Tem uma cena que ficou anos a fio registrada na minha cabecinha de criança como um ato cruel e sujo, mas que na verdade, não passava de uma mera curiosidade infantil. Sentada ao chão, atrás do sofá da sala, brincando com a nova caçulinha da casa, olho repentinamente para a carinha daquele bebê de mais ou menos uns 8 meses, e, num impulso dou uma bicota em sua boca. Não me lembro da minha intenção naquele momento. Talvez tivesse visto alguém se beijando em algum lugar e quisesse vivenciar esta experiência. Mesmo, com 5 anos de idade, eu sabia que estava fazendo algo errado. Errado segundo qual ponto de vista? Já com 5 anos, já haviam incutido em mim um ponto de vista cruel, calcado em medíocres repressões e tabus. Só fui compreender a curiosidade daquela criança que habitou-me depois de adulta. Quanto tempo, meu superego cruel a manipulou lembrando-a da coisa feia que havia feita com um bebê tão inocente. Me senti, por muito tempo, uma estupradora de minha irmãzinha. Parece uma piada, criança de 5 anos se sentir culpada. Mas, não é que aconteceu comigo? Para os adultos que carregam lixo em suas cabeças doentes... Cuidado com a visão nojenta de pudor e compostura que vocês passam a crianças que fazem parte da sua convivência.
Ficaram cenas interessantes registradas em minha mente. Numa delas, eu fingindo que estava dormindo só para ser carregada no colo depois de ter chegado da casa de campo da minha melhor coleguinha Sibele. Me dei mal! Ao chegar na porta do meu apartamento, alguém gritou: Cuidado que o gatinho vai fugir! Dei um pulo do colo de quem me carregava e gritei: Pega ele! –  Que vergonha! Fui desmascarada. Com certeza, todos os adultos ali acharam graça. Provavelmente já até sabiam que eu estava fingindo. Criança não sabe fechar os olhos direito para fingir que está dormindo, mas sabe, desde muito cedo, ter a idéia de fingir algo só para ganhar um afago gostoso.
Estes gatinhos também fazem parte de uma cena gostosa da infância. Todos os dias, eu ia buscar, juntamente com minha querida mãe, a minha irmã Aída Mara na escola. No caminho, vimos 3 gatinhos recém-nascidos e abandonados numa lata de lixo. Insisti para que a minha mãe os levasse para a  nossa casa e ela aceitou sem titubear. Minha mãe sempre foi a assessora número um de São Francisco. Cuidou destes gatinhos como se fossem um filho recém-nascido. Acho que eles deram mais trabalho que minha irmã Luciane. Dava mamadeira de leite de hora em hora, não só durante o dia, mas durante toda a madrugada até eles cresceram e virarem grandes gatos. Levava-os para passear na rua. Era gato subindo em árvore, dando um trabalho que só a Dona Aída é capaz de encarar. Depois de bem crescidos e ansiosos por uma liberdade maior, foram levados para uma cidade do interior, a gostosa Rio Casca, que vocês irão conhecer daqui uns tempos. Já desde pequenininha, recebi grandes lições de solidariedade e bondade da minha maravilhosa mãe. Ela não falava de bondade e solidariedade. Ela agia com extrema bondade e solidariedade. Suas atitudes sempre me ensinaram a desenvolver, também, um profundo respeito e amor aos animais. Para os pais que querem realmente educar seus filhos... Ouvimos as palavras, mas são os exemplos que nos transformam e nos movem.
Criança tem mais medo da saudade do que do escuro. Em algum momento fui deixada na casa de minha avó materna, em Ubá. Acho que foi quando meus pais resolveram fazer um passeio ao Rio de Janeiro. Eu sabia que minha mãe iria voltar, só não sabia direito, lidar com a falta dela. Lembro-me perfeitamente, dentro de um berço remoendo uma saudade que não tinha fim. Sozinha, sem compartilha-la com ninguém. Como eu era boazinha. Uma bondade que fazia mal ao meu coraçãozinho infantil. Ah se eu soubesse disto na época!.. Eu abriria a boca para berrar e exigir a presença de minha mãe. No entanto, lá estava eu dentro do berço, sozinha, pensando na minha mãe, desejando-a intensamente, sentindo-me só, subtraída de um grande amor que era naquela época um dos maiores alimentos para a minha alma. Eu tinha, mais ou menos uns 3 anos de idade e já sabia me comportar como um adulto. Por que eu não gritei? O máximo que conseguia era chorar escondido para ninguém perceber. De dia eu brincava e esquecia da saudade e de noite eu chorava, talvez aguardando a momento de rever o meu grande amor. Fica aí uma alerta aos pais: Nem sempre a criança chora publicamente a sua dor.
Com uma nova criança em casa eu passei a ocupar um novo espaço. Subitamente olho-me no espelho e vejo um novo ser. Nasce junto com a Luciane, a menina Cláudia. Tive que velar e enterrar a caçulinha que me habitava.















domingo, 3 de fevereiro de 2019

DEDICATÓRIA


Dedico este livro ao meu SER que abarca tantas faces, dentre elas, a minha face manca e a minha face guerreira.
 À minha eterna paciência e respeito ao meu lado manco que já deu tantas mancadas na vida e ainda há de dar tantas outras.
À minha eterna admiração ao meu lado guerreiro que além de lutar para conquistar a paz, a liberdade, o amor, a sabedoria e a felicidade, se coloca sempre de prontidão para  transformar as minhas mancadas em aprendizado.
 À minha eterna gratidão à voz que ecoa deste SER me inspirando, sendo presença nos meus momentos de solidão, fortalecendo-me nos momentos de fragilidade,  me mostrando tantos caminhos ao invés de um só, me fazendo acreditar e duvidar, me revestindo de coragem quando o medo me ameaça estagnar, mostrando meu lado negro e meu lado luz, falando a verdade mesmo quando eu peço a mentira, ajudando-me a encontrar a minha verdadeira identidade, enfim , me ensinando a ser CLÁUDIA LUIZA.
CLÁUDIA LUIZA tropeça, manca, mas jamais perde a capacidade de caminhar em frente como uma verdadeira guerreira. Aprendi a respeitá-la e ama-la. Hoje não luto contra ela, por ter ao longo de vários anos observado atentamente que ela luta sempre a meu favor.
Neste exato momento posso emocionada dizer a mim mesma:

“Eu me amo eternamente”.